A tarde estava quase no fim quando encontrei o caderno debaixo da pilha de livros na estante. Capa verde-musgo, bordas amareladas pelo tempo. Abri na primeira página e reconheci minha letra de cinco anos atrás—irregular, apressada, cheia de rasuras. Um conto inacabado sobre uma mulher que acordava todas as manhãs sem lembrar do próprio nome.
Sentei no chão mesmo, ali entre a estante e a janela. A luz filtrada pela cortina deixava tudo meio dourado, meio irreal. Comecei a ler e, página após página, percebi que tinha abandonado a história justamente no momento em que ela começava a respirar sozinha. A protagonista estava prestes a descobrir que não era perda de memória—era escolha. Ela apagava o próprio nome de propósito, todas as noites, para poder se reinventar.
Por que parei? Talvez porque na época a ideia me assustasse. A liberdade de não ser ninguém, de começar do zero a cada amanhecer. Agora, cinco anos depois, com todas as versões de mim que tentei ser e descartar, a história fazia um sentido doloroso e cristalino.
Peguei a caneta que estava no parapeito e escrevi uma linha nova, logo depois da última frase antiga. Não forcei continuação—deixei que fosse só uma ponte: "Ela tocou o espelho e sussurrou: hoje, talvez, eu fique."
Fechei o caderno devagar. Não sei se vou terminar essa história amanhã ou daqui a cinco anos. Mas gosto de saber que ela existe ali, esperando, como uma porta entreaberta num corredor que pensei ter percorrido inteiro.
Lá fora, um cachorro latiu três vezes. O som ecoou e sumiu. Fiquei pensando em todas as coisas que deixamos pela metade—não por desistência, mas porque ainda não éramos quem precisávamos ser para terminá-las.
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