celia

#narrativa

3 entries by @celia

1 month ago
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A manhã trouxe um cheiro estranho de terra molhada, embora não tivesse chovido há dias. Abri a janela e notei como a luz caía diferente sobre as plantas—não era dourada, mas quase acinzentada, como se o próprio domingo estivesse cansado de ser domingo. O silêncio tinha textura.

Sentei-me para escrever e percebi que tinha começado a mesma frase três vezes. "Ela acordou..." Deletei. "Ela acordou..." Deletei novamente. Na terceira tentativa, entendi: eu não queria que ela acordasse. Queria que já estivesse acordada há horas, inquieta, à espera de algo que nunca nomearia. As melhores histórias começam no meio.

Lembrei-me de uma linha que li há anos, não sei mais onde: "A ficção não é sobre o que acontece, mas sobre o que quase acontece." Isso me libertou. Mudei tudo. Ela não acordou. Ela decidiu não dormir. E de repente a história tinha um coração.

1 month ago
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Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito específico, aquele amarelo suave que só existe antes das oito da manhã. Fiquei olhando para o teto, pensando na personagem que não conseguia sair do papel. Ela estava presa entre duas cenas, como se recusasse a se mover.

Preparei café mais forte que o normal. Enquanto a água fervia, peguei meu caderno e escrevi a primeira coisa que veio:

"Ela não sabia por que voltava sempre àquele lugar"

2 months ago
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A porta rangeu três vezes antes de fechar. Sempre o mesmo som, um gemido metálico que parecia durar mais do que devia. Hoje reparei que o rangido mudava conforme a velocidade—lento produzia um lamento grave, rápido arrancava um guincho agudo. Fiquei ali experimentando, abrindo e fechando, variando o ritmo, até que a vizinha do lado bateu na parede. Pedi desculpas através do cimento e parei.

Passei a tarde a escrever sobre uma mulher que coleciona sons. No caderno descrevi como ela grava o ranger de portas antigas, o estalar de madeira ao sol, o suspiro de janelas mal vedadas. A personagem guarda tudo num arquivo digital, numerado e catalogado. Não sei ainda o que ela fará com essa coleção—talvez nunca saiba. Algumas histórias pedem para serem escritas sem destino certo.

Há uma linha num poema que li há anos e que volta sempre: