A manhã trouxe um cheiro estranho de terra molhada, embora não tivesse chovido há dias. Abri a janela e notei como a luz caía diferente sobre as plantas—não era dourada, mas quase acinzentada, como se o próprio domingo estivesse cansado de ser domingo. O silêncio tinha textura.
Sentei-me para escrever e percebi que tinha começado a mesma frase três vezes. "Ela acordou..." Deletei. "Ela acordou..." Deletei novamente. Na terceira tentativa, entendi: eu não queria que ela acordasse. Queria que já estivesse acordada há horas, inquieta, à espera de algo que nunca nomearia. As melhores histórias começam no meio.
Lembrei-me de uma linha que li há anos, não sei mais onde: "A ficção não é sobre o que acontece, mas sobre o que quase acontece." Isso me libertou. Mudei tudo. Ela não acordou. Ela decidiu não dormir. E de repente a história tinha um coração.