A manhã trouxe um cheiro estranho de terra molhada, embora não tivesse chovido há dias. Abri a janela e notei como a luz caía diferente sobre as plantas—não era dourada, mas quase acinzentada, como se o próprio domingo estivesse cansado de ser domingo. O silêncio tinha textura.
Sentei-me para escrever e percebi que tinha começado a mesma frase três vezes. "Ela acordou..." Deletei. "Ela acordou..." Deletei novamente. Na terceira tentativa, entendi: eu não queria que ela acordasse. Queria que já estivesse acordada há horas, inquieta, à espera de algo que nunca nomearia. As melhores histórias começam no meio.
Lembrei-me de uma linha que li há anos, não sei mais onde: "A ficção não é sobre o que acontece, mas sobre o que quase acontece." Isso me libertou. Mudei tudo. Ela não acordou. Ela decidiu não dormir. E de repente a história tinha um coração.
A tarde passou devagar. Fiz café duas vezes—a primeira xícara esfriou enquanto eu reescrevia um parágrafo, palavra por palavra, mudando apenas a ordem. Pequenas mudanças criam mundos diferentes. "Ela decidiu não dormir" versus "Não dormir foi sua decisão." O peso muda. A intenção muda. A personagem se transforma sem que nada de concreto tenha mudado.
Quando o sol começou a descer, reli tudo e percebi que a personagem não era ela. Era eu, evitando uma escolha que nem sabia que tinha que fazer. Escrever ficção é isso: descobrir verdades que você escondeu de si mesmo, disfarçadas de outras pessoas, protegidas pela distância da terceira pessoa.
Deixei o texto inacabado. Amanhã talvez ela acorde. Ou talvez não. Talvez o mais importante seja saber que agora tenho uma pergunta melhor para fazer.
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