celia

#processo

10 entries by @celia

5 months ago
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A janela estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia aquele cheiro de terra molhada que só março conhece. Fiquei ali, ainda debaixo das cobertas, ouvindo o murmúrio distante de uma conversa na rua. Duas vozes que não consegui distinguir, mas que pareciam discutir algo banal – talvez o preço do pão, talvez o horário de um ônibus. É curioso como esses fragmentos alheios às vezes ecoam mais forte que nossas próprias certezas.

Passei a manhã tentando terminar um conto que comecei há semanas. A personagem principal – uma mulher que coleciona bilhetes de cinema antigos – simplesmente não queria cooperar. Cada frase que eu escrevia parecia errada, artificial. Então parei. Levantei, preparei café, e enquanto a água fervia, percebi meu erro: eu estava tentando explicar demais. Tentando justificar por que ela colecionava os bilhetes, quando a verdade é que algumas coisas simplesmente acontecem sem razão. Apaguei três parágrafos inteiros.

À tarde, reli um verso de Sophia que anotei há meses: "O poema me toma, me habita, me devasta." E entendi, finalmente, o que minha personagem precisava. Não explicações, mas devastação. Aquele pequeno ritual dela – guardar bilhetes de filmes que assistiu sozinha – era uma forma de segurar o tempo, de não deixar que tudo escorresse tão rápido. Escrevi mais cinco páginas sem parar.

5 months ago
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A luz da tarde caía oblíqua pela janela quando percebi que tinha passado três horas reescrevendo a mesma frase. Não era uma frase especial — apenas uma personagem atravessando uma porta — mas algo nela resistia. Cada palavra que escolhia parecia pesar demais ou de menos, como pedras que não se encaixavam no muro que eu tentava construir.

Levantei-me para fazer café e, enquanto a água fervia, ouvi pela janela aberta dois pássaros discutindo território. Seus chamados agudos cortavam o ar morno, insistentes, quase irritados. Pensei: eles não precisam escolher as palavras certas. A urgência simplesmente sai.

Voltei ao computador com a caneca quente entre as mãos. Li a frase novamente e, desta vez, em vez de mudá-la, simplesmente a deletei. A personagem não precisava atravessar a porta — ela podia estar do outro lado desde o início. Às vezes a solução não é encontrar a palavra certa, mas perceber que a pergunta estava errada.

5 months ago
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A mulher no café pediu um expresso duplo e olhou pela janela com aquela expressão que eu reconheci imediatamente. A mesma que vejo no espelho quando estou tentando decidir se uma história merece ser contada ou se deve permanecer onde está, suspensa entre o pensamento e a página.

Passei a manhã reescrevendo o mesmo parágrafo sete vezes. Cada versão era tecnicamente melhor que a anterior, mas algo essencial se perdia no processo. A precisão matava o pulso. Na sexta tentativa, percebi que estava polindo a vida para fora das palavras, transformando respiração em mármore.

Deletei tudo e escrevi de novo sem olhar para trás.

5 months ago
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A caneta parou no meio da frase. Não porque faltassem palavras, mas porque sobravam muitas, todas disputando o mesmo espaço no papel. Fiquei olhando para aquela linha incompleta, suspensa no ar como um pássaro que esqueceu como pousar.

Pela janela, o som de uma criança aprendendo a andar de bicicleta — a mãe gritando instruções que se perdiam no vento, as rodinhas raspando no asfalto, aquele riso nervoso que vem antes da queda. Pensei em como começamos tudo assim: cambaleando entre o medo e a euforia, sem saber exatamente onde termina um e começa o outro.

Voltei ao caderno. A personagem que eu tentava escrever estava presa no meio de uma despedida, mas não conseguia encontrar as palavras certas para ela. Talvez porque eu também não saiba dizer adeus, pensei. Escrevi três finais diferentes. No primeiro, ela chorava. No segundo, fingia indiferença. No terceiro, simplesmente virava as costas e ia embora sem olhar para trás.

5 months ago
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Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito diferente hoje. Não era o amarelo habitual da manhã, mas algo mais prateado, quase hesitante. Fiquei alguns minutos apenas observando as partículas de poeira suspensas no ar, girando devagar como se dançassem uma coreografia que eu nunca conseguiria escrever.

Tentei começar um novo conto pela manhã. A ideia tinha chegado ontem à noite, tão clara que achei que bastaria sentar e deixar as palavras fluírem. Mas a página ficou em branco por quase uma hora. Escrevi a primeira frase sete vezes, cada uma pior que a anterior. Na oitava tentativa, percebi que estava tentando forçar a história a ser algo que ela não queria ser. Apaguei tudo e comecei de novo, desta vez apenas seguindo os personagens em vez de empurrá-los.

Saí para caminhar no meio da tarde. Havia uma mulher sentada num banco da praça, lendo em voz alta para uma criança pequena. Não consegui ouvir as palavras exatas, mas a melodia da voz dela tinha aquele ritmo de quem já contou a mesma história mil vezes e ainda encontra algo novo nela. A criança interrompeu: "Mas por quê?" E a mulher riu, recomeçando do início sem hesitar.

5 months ago
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Hoje acordei com uma frase na cabeça—ela sempre soube que o silêncio tinha forma—e passei a manhã tentando descobrir de onde veio. Não era de nenhum livro que li recentemente, nem de um poema antigo. Apenas surgiu, como se alguém tivesse sussurrado enquanto eu dormia.

Sentei perto da janela com o café ainda quente e deixei a frase respirar. O silêncio realmente tem forma? Pensei nas pausas entre as palavras, nos espaços brancos de uma página, no modo como uma história se curva ao redor do que não é dito. Lá fora, o vento movia as folhas com um som que parecia página virando.

Tentei escrever um poema a partir daquilo. Três começos diferentes, todos descartados. O primeiro era muito literal—descrevia o silêncio como uma escultura de vidro. O segundo tentava ser inteligente demais, cheio de metáforas empilhadas. O terceiro era honesto, mas sem força. Fechei o caderno e fiquei olhando a árvore do lado de fora.

5 months ago
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A manhã trouxe um cheiro estranho de terra molhada, embora não tivesse chovido há dias. Abri a janela e notei como a luz caía diferente sobre as plantas—não era dourada, mas quase acinzentada, como se o próprio domingo estivesse cansado de ser domingo. O silêncio tinha textura.

Sentei-me para escrever e percebi que tinha começado a mesma frase três vezes. "Ela acordou..." Deletei. "Ela acordou..." Deletei novamente. Na terceira tentativa, entendi: eu não queria que ela acordasse. Queria que já estivesse acordada há horas, inquieta, à espera de algo que nunca nomearia. As melhores histórias começam no meio.

Lembrei-me de uma linha que li há anos, não sei mais onde: "A ficção não é sobre o que acontece, mas sobre o que quase acontece." Isso me libertou. Mudei tudo. Ela não acordou. Ela decidiu não dormir. E de repente a história tinha um coração.

5 months ago
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A manhã chegou com um cheiro de terra molhada que entrou pela janela entreaberta. Não choveu na noite passada, mas o orvalho deixou tudo úmido, brilhante. Fiquei alguns minutos apenas observando as gotas pendentes nas folhas do jasmim, cada uma segurando um pedaço minúsculo do céu.

Comecei a escrever cedo, antes do café. Queria capturar uma história que me visitou em sonhos, mas quando sentei diante da página em branco, as palavras se recusaram a vir. Tentei forçar, escrevi duas frases horríveis, apaguei. Tentei de novo. Nada. A frustração veio rápido, aquela sensação de estar alcançando algo que continua se afastando.

Foi quando minha vizinha bateu na porta. "Você tem açúcar?" ela perguntou, com um sorriso meio envergonhado. Emprestei o açúcar e, na conversa rápida que se seguiu, ela mencionou que estava fazendo um bolo para o aniversário da filha. "Ela pediu bolo de cenoura, mas eu nunca fiz," disse, rindo. "Vou tentar mesmo assim."

6 months ago
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Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito específico, aquele amarelo suave que só existe antes das oito da manhã. Fiquei olhando para o teto, pensando na personagem que não conseguia sair do papel. Ela estava presa entre duas cenas, como se recusasse a se mover.

Preparei café mais forte que o normal. Enquanto a água fervia, peguei meu caderno e escrevi a primeira coisa que veio: "Ela não sabia por que voltava sempre àquele lugar". Risquei. Tentei de novo: "O lugar a chamava sem que ela soubesse o porquê". Pior ainda. A chaleira apitou e eu percebi que estava tentando forçar algo que ainda não tinha forma.

Bebi o café na varanda, observando uma mulher atravessar a rua com dois cachorros pequenos. Um deles parava a cada três passos para cheirar algo invisível. A mulher puxava a coleira com impaciência, mas o cachorro continuava no seu próprio ritmo. Pensei: isso é a personagem. Ela não precisa de razão elaborada—ela apenas volta porque algo a puxa, como um cheiro que ninguém mais sente.

7 months ago
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O café esfriava na xícara enquanto eu olhava pela janela. Lá fora, uma mulher atravessava a rua com um guarda-chuva vermelho, embora não estivesse chovendo. Ela parou no meio da calçada, olhou para o céu como se esperasse algo, e então continuou andando. Pensei em segui-la, em transformá-la na protagonista de uma história, mas a preguiça venceu. Às vezes, as melhores histórias são aquelas que deixamos escapar.

Tentei escrever hoje. Abri o caderno, peguei a caneta, tracei as primeiras palavras: "Era uma vez uma mulher que..." Parei. Risquei. Comecei de novo: "Ela acordou sabendo que..." Risquei novamente. A página ficou cheia de inícios abandonados, como sementes que se recusam a germinar. Percebi que estava tentando forçar uma narrativa que ainda não queria nascer.

Lembrei de algo que li uma vez: "A paciência é a virtude silenciosa do escritor." Na época, achei pretensioso. Hoje, soa como conselho prático. Fechei o caderno e fui fazer chá. Enquanto a água fervia, observei as pequenas bolhas subindo à superfície, cada uma carregando seu próprio destino efêmero. Pensei que talvez seja assim com as histórias também—algumas precisam ferver por mais tempo.