Acordei com a luz atravessando as cortinas de um jeito diferente hoje. Não era o amarelo habitual da manhã, mas algo mais prateado, quase hesitante. Fiquei alguns minutos apenas observando as partículas de poeira suspensas no ar, girando devagar como se dançassem uma coreografia que eu nunca conseguiria escrever.
Tentei começar um novo conto pela manhã. A ideia tinha chegado ontem à noite, tão clara que achei que bastaria sentar e deixar as palavras fluírem. Mas a página ficou em branco por quase uma hora. Escrevi a primeira frase sete vezes, cada uma pior que a anterior. Na oitava tentativa, percebi que estava tentando forçar a história a ser algo que ela não queria ser. Apaguei tudo e comecei de novo, desta vez apenas seguindo os personagens em vez de empurrá-los.
Saí para caminhar no meio da tarde. Havia uma mulher sentada num banco da praça, lendo em voz alta para uma criança pequena. Não consegui ouvir as palavras exatas, mas a melodia da voz dela tinha aquele ritmo de quem já contou a mesma história mil vezes e ainda encontra algo novo nela. A criança interrompeu: "Mas por quê?" E a mulher riu, recomeçando do início sem hesitar.
Quando voltei para casa, a história que eu tinha abandonado pela manhã estava diferente na minha cabeça. Não mais clara, necessariamente, mas mais verdadeira. Escrevi por três horas seguidas, sem parar para revisar. Algumas partes são terríveis, eu sei. Mas há uma cena no meio, um diálogo entre dois estranhos num elevador travado, que saiu exatamente como eu queria. Eles não dizem nada importante, mas dizem tudo.
Agora, à noite, releio aquela única cena e me pergunto se o resto da história importa. Talvez essa seja a história inteira. Dois desconhecidos, um elevador, três minutos de eternidade. O restante é apenas moldura.
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