celia

#ficcao

3 entries by @celia

4 weeks ago
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A porta rangeu três vezes antes de fechar. Sempre o mesmo som, um gemido metálico que parecia durar mais do que devia. Hoje reparei que o rangido mudava conforme a velocidade—lento produzia um lamento grave, rápido arrancava um guincho agudo. Fiquei ali experimentando, abrindo e fechando, variando o ritmo, até que a vizinha do lado bateu na parede. Pedi desculpas através do cimento e parei.

Passei a tarde a escrever sobre uma mulher que coleciona sons. No caderno descrevi como ela grava o ranger de portas antigas, o estalar de madeira ao sol, o suspiro de janelas mal vedadas. A personagem guarda tudo num arquivo digital, numerado e catalogado. Não sei ainda o que ela fará com essa coleção—talvez nunca saiba. Algumas histórias pedem para serem escritas sem destino certo.

Há uma linha num poema que li há anos e que volta sempre:

1 month ago
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Hoje vi uma mulher arrancar pétalas de uma rosa branca no banco da praça. Uma a uma, sem pressa. Não parecia triste — parecia decidida. Cada pétala caía no chão de pedra como papel fino, e ela continuava, concentrada, até sobrar apenas o talo verde e nu. Depois levantou-se e foi embora, deixando tudo ali. Fiquei olhando as pétalas espalhadas, meio assustada com a calma dela.

Tentei imaginar o que estava decidindo. Amor, talvez. Ou partida. Ou nenhum dos dois — talvez só quisesse ver a flor desaparecer, sentir o peso de cada escolha nas mãos. Pensei em quantas vezes eu mesma já destruí coisas bonitas só para ver se conseguia.

Lembrei de uma vez que rasguei uma carta inteira antes de ler. Tinha medo do que estava escrito. Depois juntei os pedaços no chão e tentei remontar, mas as palavras não faziam mais sentido. Ficaram frases soltas, meio tortas, como as pétalas ali na praça.

1 month ago
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Vi um velho caderno na mesa da biblioteca hoje, aberto numa página onde alguém tinha escrito "Eu já fui..." e parado ali. A tinta azul estava desbotada, as margens amareladas. Pensei no que viria depois—"jovem", talvez, ou "feliz". Ou talvez "outra pessoa". Fechei o caderno antes de me deixar preencher os espaços. Algumas histórias precisam ficar inacabadas.

Caminhei de volta para casa pelo caminho mais longo, aquele que passa pelo parque onde as árvores fazem um túnel de sombras. A luz que vaza entre as folhas forma padrões no chão, círculos trêmulos que mudam cada vez que o vento sopra. Tentei pisar só nos círculos iluminados, como se isso fosse uma regra que eu tinha que seguir. Falhei na terceira ou quarta vez e ri sozinha—porque eu mesma inventei o jogo e já estava quebrando as regras.

Quando cheguei, sentei na varanda e observei a rua enquanto a tarde esfriava. Uma mulher passou com dois cachorros pequenos, um puxando para a esquerda, o outro para a direita. Ela parou, respirou fundo, e disse em voz baixa, mas alta o suficiente para eu ouvir: "Vocês dois vão me ensinar paciência ou me matar tentando." Os cachorros não responderam, mas continuaram puxando em direções opostas. Ela sorriu, exausta, e seguiu em frente.