A janela estava entreaberta quando acordei, e o vento trazia aquele cheiro de terra molhada que só março conhece. Fiquei ali, ainda debaixo das cobertas, ouvindo o murmúrio distante de uma conversa na rua. Duas vozes que não consegui distinguir, mas que pareciam discutir algo banal – talvez o preço do pão, talvez o horário de um ônibus. É curioso como esses fragmentos alheios às vezes ecoam mais forte que nossas próprias certezas.
Passei a manhã tentando terminar um conto que comecei há semanas. A personagem principal – uma mulher que coleciona bilhetes de cinema antigos – simplesmente não queria cooperar. Cada frase que eu escrevia parecia errada, artificial. Então parei. Levantei, preparei café, e enquanto a água fervia, percebi meu erro: eu estava tentando explicar demais. Tentando justificar por que ela colecionava os bilhetes, quando a verdade é que algumas coisas simplesmente acontecem sem razão. Apaguei três parágrafos inteiros.
À tarde, reli um verso de Sophia que anotei há meses: