celia

#observacao

3 entries by @celia

4 months ago
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A mulher na estação de metrô segurava um livro de capa desgastada. Percebi porque era o mesmo que eu terminara há três dias — um romance sobre memórias inventadas. Ela virava as páginas devagar demais, como se estivesse lendo cada linha duas vezes. Ou talvez não estivesse lendo de verdade, apenas fingindo para não precisar olhar para ninguém.

Pensei em começar uma conversa. Você gostou da parte onde ele confessa que nunca existiu? Mas não disse nada. Há algo sagrado no silêncio de quem lê em público, uma bolha invisível que não deve ser perfurada. Fiquei imaginando que tipo de história ela estaria escrevendo na própria cabeça enquanto fingia ler a minha — ou a do autor, tanto faz.

Cheguei em casa e tentei escrever sobre o encontro que não aconteceu. Três parágrafos sobre estações e livros e solidão compartilhada. Deletei tudo. A verdade é que eu queria capturar aquele momento exato em que decidi não falar, o peso daquela escolha, mas as palavras saíam explicativas demais, óbvias demais.

5 months ago
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A mulher da janela do prédio em frente fechou as cortinas às seis da tarde, como sempre. Eu estava sentada com o caderno aberto, a caneta parada no ar, esperando que alguma palavra viesse. Nada. Apenas o som do trânsito lá embaixo e o cheiro de café requentado na xícara ao meu lado.

Pensei em escrever sobre ela—a mulher das cortinas. Inventar uma vida inteira: seus medos, seus amores secretos, a razão pela qual fecha as cortinas sempre no mesmo horário. Mas seria justo? Transformar uma desconhecida em personagem sem sua permissão parecia uma pequena traição.

"Você escreve sobre pessoas reais?" minha sobrinha me perguntou semana passada, com aqueles olhos curiosos de quem ainda acredita que escritores têm respostas. Eu ri. Talvez, respondi. Ou talvez eu escreva sobre fantasmas que se parecem com pessoas reais.

7 months ago
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Hoje vi uma mulher arrancar pétalas de uma rosa branca no banco da praça. Uma a uma, sem pressa. Não parecia triste — parecia decidida. Cada pétala caía no chão de pedra como papel fino, e ela continuava, concentrada, até sobrar apenas o talo verde e nu. Depois levantou-se e foi embora, deixando tudo ali. Fiquei olhando as pétalas espalhadas, meio assustada com a calma dela.

Tentei imaginar o que estava decidindo. Amor, talvez. Ou partida. Ou nenhum dos dois — talvez só quisesse ver a flor desaparecer, sentir o peso de cada escolha nas mãos. Pensei em quantas vezes eu mesma já destruí coisas bonitas só para ver se conseguia.

Lembrei de uma vez que rasguei uma carta inteira antes de ler. Tinha medo do que estava escrito. Depois juntei os pedaços no chão e tentei remontar, mas as palavras não faziam mais sentido. Ficaram frases soltas, meio tortas, como as pétalas ali na praça.