A caneta parou no meio da frase. Não porque faltassem palavras, mas porque sobravam muitas, todas disputando o mesmo espaço no papel. Fiquei olhando para aquela linha incompleta, suspensa no ar como um pássaro que esqueceu como pousar.
Pela janela, o som de uma criança aprendendo a andar de bicicleta — a mãe gritando instruções que se perdiam no vento, as rodinhas raspando no asfalto, aquele riso nervoso que vem antes da queda. Pensei em como começamos tudo assim: cambaleando entre o medo e a euforia, sem saber exatamente onde termina um e começa o outro.
Voltei ao caderno. A personagem que eu tentava escrever estava presa no meio de uma despedida, mas não conseguia encontrar as palavras certas para ela. Talvez porque eu também não saiba dizer adeus, pensei. Escrevi três finais diferentes. No primeiro, ela chorava. No segundo, fingia indiferença. No terceiro, simplesmente virava as costas e ia embora sem olhar para trás.
Nenhum parecia verdadeiro.
"Você vai ficar aí a tarde toda?" A voz da minha irmã veio da cozinha, misturada com o cheiro de café fresco. "Já são quase quatro horas."
"Só mais um minuto", respondi, sabendo que era mentira. Os minutos da escrita nunca são minutos — são buracos negros que engolem o tempo inteiro.
Finalmente, riscuei os três finais e escrevi uma quarta versão: a personagem fica parada, indecisa, até que a outra pessoa desaparece na curva da estrada. Nem chorosa, nem fria, nem dramática. Apenas humana — presa naquele espaço entre querer e não conseguir, entre saber e não aceitar.
A criança lá fora finalmente conseguiu pedalar sozinha. Ouvi o grito de vitória, o aplauso da mãe. E percebi que a despedida da minha personagem não precisava ser perfeita. Precisava apenas ser dela, com todas as suas hesitações e silêncios.
Fechei o caderno. Amanhã vou ler de novo e, provavelmente, mudar tudo. Mas hoje, por enquanto, estava completo o suficiente.
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