A padaria do Alair abria às quatro e meia. Ela sabia disso porque tinha passado a noite no banco de ferro do lado de fora, o casaco enrolado no colo, esperando — não o café, não o pão — mas o momento em que a cidade deixaria de pertencer ao silêncio.
Dentro da bolsa havia um envelope. Tinha chegado naquela manhã, com o carimbo de março, mas já era agosto. Alguém o guardara, esquecera, colocara num saco junto com roupas que não serviam mais, e assim chegara até ela por acaso, pelas mãos de uma prima que a visitara sem avisar.
A letra era do Renato.
Ela não abrira ainda. Ficara sentada no banco desde as duas, com o envelope no colo como se fosse uma coisa frágil, como se o papel ainda estivesse respirando.
Às quatro e vinte, o Alair acendeu as luzes. Ela viu a sombra dele movendo-se atrás do vidro embaçado, a silhueta grande, os braços que empurravam a porta vaivém. O cheiro de café e de gordura quente veio antes de qualquer palavra.
—Cedo hoje, dona Tereza.
Ela entrou. Pediu um café com leite e sentou na mesa do fundo, aquela com a cadeira de pé torto que ninguém escolhia. Pôs o envelope na mesa. Olhou para ele enquanto o leite subia, quieto, na caneca de louça grossa.
Às quatro e meia, o Alair abriu a porta de verdade. O primeiro ônibus passou lá fora, vazio, como sempre passa o primeiro.
Ela dobrou o envelope ao meio, sem abrir, e o colocou de volta na bolsa.
Pediu mais um café.
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