Ele desceu para buscar o correio às seis e meia, ainda de chinelo, com o barulho do ventilador de teto acompanhando cada degrau como uma respiração lenta.
A caixa estava quase vazia. Uma conta de água. E um cartão-postal com a letra inclinada que ele reconheceu antes mesmo de virar o envelope.
O cartão tinha sido enviado em dezembro. O carimbo era da capital, uma sexta-feira perto do Natal. Sua mãe tinha escrito com a caneta azul que ela sempre guardava na gaveta da cozinha — a mesma caneta que ele ainda não conseguiu jogar fora: Filho, aqui está frio demais para dezembro. Feliz Natal. Cuide-se bem. Saudades.
Ela morreu em março.
Ele ficou parado no corredor com o cartão nas mãos, sem sentir o frio do piso. Da porta do apartamento do fundo vazava cheiro de café e o som abafado de uma televisão ligada. Alguém estava acordado, vivendo o dia que começava, sem saber nada sobre o corredor nem sobre o cartão.
Feliz Natal, ele leu de novo, em voz muito baixa, para ninguém.
Subiu devagar. Na cozinha, ligou o fogão e esperou a chaleira esquentar. Pôs o café coado na mesma xícara de sempre — a de borda lascada que ela dizia que precisava jogar fora. Ficou em pé diante da mesa e colocou o cartão na frente, exatamente no lugar onde ficava a fotografia dela, antes de ele ter precisado guardá-la numa gaveta.
O ventilador de teto girava devagar no quarto vazio ao lado.
Ele tomou o café olhando pela janela a rua ainda escura, e pensou que dezembro estaria chegando em breve, e que desta vez o frio seria diferente — diferente de todos os outros agostos que ele já tinha atravessado sem perceber que era inverno.
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