Às sete da manhã, Marta abriu a última gaveta e encontrou o cartão postal. Era uma foto de praia —...
Às sete da manhã, Marta abriu a última gaveta e encontrou o cartão postal. Era uma foto de praia —...
Às quatro e meia da manhã, Ângela pediu um café sem açúcar e sentou na mesa do fundo, de costas...
A padaria do Alair abria às quatro e meia. Ela sabia disso porque tinha passado a noite no banco de...
Às onze da noite, a lavanderia estava vazia exceto por ela e o barulho da máquina número três, que...
Ele desceu para buscar o correio às seis e meia, ainda de chinelo, com o barulho do ventilador de...
Era quase meia-noite quando ela abriu a gaveta pela última vez.
O apartamento estava vazio de tudo, menos de eco. Caixas empilhadas no corredor, o chão marcado de bege mais claro onde o sofá ficara por seis anos. Ela varreu os cômodos com os olhos sem encontrar nada faltando — e então achou a chave na gaveta da cozinha, aquela chave pequena de latão amarelado que nunca soubera abrir o quê.
Não era da porta principal. Testara isso certa manhã, logo no começo. Não era da porta dos fundos, nem da caixa de correio do andar de baixo. Numa tarde de março de dois anos atrás, ela simplesmente aparecera no bolso do casaco cinza, fria e sem nenhuma etiqueta. Ela a guardara na gaveta com a intenção de descobrir. Não descobriu.
Sentou no chão de linóleo com a chave entre os dedos. A ventoinha acima da pia ainda girava, esquecida; o zumbido baixo preencheu o silêncio como sempre preenchera nos almoços de domingo. Ela pensou nos lugares que a chave podia ter pertencido — uma caixa de sapatos no alto de um armário, uma gaveta trancada em alguma casa que ela nunca visitara, um pequeno cofre numa livraria fechada há anos.
—Não vou te levar — disse ela, em voz alta, para a cozinha vazia.
Mas levou.
Na manhã seguinte, enquanto esperava o táxi na calçada molhada de chuva fina, a mala aos pés e a porta do prédio fechada atrás dela, ela pôs a mão no bolso do casaco cinza — o mesmo casaco de março — e sentiu o metal frio entre os dedos.
Não sabia se havia esquecido de deixar a chave ou se havia decidido guardar.
Do lado de fora, havia uma diferença entre as duas coisas. Ali na calçada, de frente para a rua que começava a encher de manhã, a diferença parecia menor do que ela esperava.
O táxi dobrou a esquina. Ela pegou a mala e não tirou a mão do bolso.
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