Às sete da manhã, Marta abriu a última gaveta e encontrou o cartão postal.
Era uma foto de praia — azul desbotado, coqueiros tortos —, e no verso, uma letra redonda que ela reconheceu como a sua própria, de dez anos atrás. Quando chegar o verão, estava escrito, eu volto.
Ela ficou parada no meio da sala vazia. As paredes mostravam os quadrados mais escuros onde os quadros tinham ficado por anos, como sombras de coisas que partiram antes de você. A janela estava aberta. Entrava um cheiro de café e asfalto molhado — o cheiro específico daquela rua às manhãs de terça-feira, o único horário em que a cidade ainda parecia hesitar.
O caminhão de mudança chegaria às dez.
Marta leu o cartão duas vezes. Não se lembrava de tê-lo escrito, mas reconhecia a caneta — uma azul escura que ela usara apenas naquele apartamento, até a tinta acabar. Reconhecia também o tom do eu volto, a promessa de alguém que ainda não sabia que não voltaria.
Ela pôs o cartão no bolso do casaco.
Lá fora, uma criança passou correndo pela calçada e gritou algo para alguém mais adiante. O eco sumiu rápido, como acontece nas ruas em declive.
Quando os homens da mudança chegaram, Marta entregou a chave ao síndico sem olhar para o apartamento uma última vez. Era o tipo de coisa que ela sabia fazer. Mas na escada, enfiou a mão no bolso e sentiu a borda gasta do cartão postal — o azul desbotado, os coqueiros tortos — e parou um segundo. O verão tinha chegado e ido embora muitas vezes desde então. Ela não havia percebido nenhuma delas.
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