Era quase meia-noite quando Marta abriu a porta da lavanderia. A máquina do canto zumbia mesmo sem roupa dentro — um costume do lugar, como se o aparelho precisasse lembrar que ainda estava ali.
Ela encheu a máquina do meio e colocou as moedas uma por uma, com cuidado de não perder a última. Sentou na cadeira de plástico laranja, a única que não balançava, e ficou olhando o giro lento da roupa molhada. Na parede, um calendário de três anos atrás mostrava uma modelo de vestido azul-marinho sorrindo para algo fora do quadro.
Do lado de fora, a rua estava molhada. Não havia chovido desde as seis da tarde, mas o asfalto ainda segurava o cheiro — aquela quentura úmida que Marta associava a chegadas, não a partidas. Ela pensou nisso um momento e depois não pensou mais.
Quando a máquina parou, ela abriu a porta de borracha e enfiou o braço até o fundo. Entre a última peça havia algo que não era dela. Uma fotografia pequena, retangular — como as de câmera instantânea. A umidade tinha amolecido as bordas, mas a imagem permanecia clara: duas pessoas de costas, olhando a fachada de um prédio velho, pintado de amarelo desbotado. Não se via o rosto de nenhuma das duas.
Marta virou a fotografia. No verso, uma letra miúda e inclinada: voltamos aqui uma vez, só pra ver.
Ela ficou parada com o papel na mão, a roupa escorrendo sobre o chão de cimento. A máquina do canto continuou zumbindo. Em algum momento, de alguma forma, duas pessoas tinham voltado a um lugar. E depois tinham ido embora de novo, deixando a foto numa máquina de lavar, numa lavanderia de bairro, às quase meia-noite.
Antes de sair, Marta encostou a fotografia no calendário, ao lado da modelo de vestido azul. Pareceu-lhe que era o lugar certo — não porque fizesse sentido, mas talvez por isso mesmo. Lá fora, o asfalto ainda cheirava a chegada.
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