A luz da tarde entrava pela janela da cozinha de um jeito que não tinha visto antes — oblíqua, quase sólida, cortando o vapor da chaleira em fatias douradas. Fiquei ali parada, esquecendo por um momento que tinha posto a água para ferver.
Há semanas tentava escrever um conto sobre uma mulher que desaparece aos poucos, começando pelas mãos. Cada versão soava forçada, mecânica demais. A metáfora gritava em vez de sussurrar. Mas ali, vendo aquela luz transformar vapor em algo quase tangível, entendi meu erro: estava explicando a transformação em vez de simplesmente mostrá-la acontecendo.
Desliguei o fogo e peguei o caderno que sempre deixo na mesa. Escrevi uma cena nova — a personagem fazendo café, percebendo que suas mãos não projetam mais sombra. Nenhuma explicação. Nenhum porquê. Apenas o momento de percepção, o modo como ela deixa a xícara cair, devagar, como quem solta algo que já não existe.