Acordei com o barulho da chuva batendo no vidro, aquele som constante que parece apagar o resto do mundo. Fiquei deitada alguns minutos só ouvindo, tentando decidir se levantava ou me enrolava mais no cobertor. A luz da manhã estava cinzenta, filtrada pelas nuvens, e havia algo de reconfortante naquela penumbra.
Fui até a cozinha descalça, sentindo o frio do chão de cerâmica nos pés. Enquanto esperava a água ferver, peguei um caderno velho que estava em cima da mesa. Páginas amareladas, algumas dobradas nas pontas. Comecei a folhear e encontrei um poema que escrevi há anos, quando ainda morava em outro lugar, com outras pessoas. As palavras pareciam de outra pessoa, mas a caligrafia era minha.
Passei a tarde escrevendo uma história que vem me perseguindo há semanas. É sobre uma mulher que encontra cartas antigas em um sótão e descobre que sua avó teve uma vida completamente diferente da que todos conheciam. Não sei para onde a história vai, só sei que preciso continuar escrevendo. Às vezes é assim: as personagens surgem antes do enredo, e eu preciso segui-las para descobrir o caminho.