A manhã chegou com aquele cheiro de terra molhada que vem antes da chuva, mesmo quando o céu ainda está claro. Sentei na varanda com o caderno no colo, mas a caneta ficou parada. Às vezes a ficção pede silêncio, não palavras.
Uma vizinha passou apressada, o filho pequeno ao lado. Ele perguntou: "Mãe, por que as nuvens ficam cinzas antes de chover?" Ela não respondeu, apenas puxou a mão dele com mais força. Fiquei pensando na pergunta. Nas perguntas que fazemos quando somos pequenos e que deixamos de fazer quando crescemos, como se tivéssemos encontrado todas as respostas. Não encontramos.
Passei a tarde tentando escrever um conto sobre uma mulher que coleciona perguntas não respondidas. Escrevi três páginas, apaguei tudo. O erro estava em tentar explicar demais – por que ela coleciona, o que isso significa, onde vai dar. A ficção não precisa de mapas. Precisa de pegadas na lama, do rastro de algo que passou.
Recomeçei. Desta vez, apenas uma cena: a mulher numa biblioteca vazia, copiando perguntas das margens dos livros velhos. "Para onde vão os pássaros quando param de cantar?" escrito a lápis numa edição de 1954. Não expliquei nada. Deixei a pergunta ecoar.
Agora, à noite, a chuva finalmente chegou. O som na telha é constante, quase hipnótico. Penso na diferença entre escrever para responder e escrever para deixar algo em aberto. A poesia sempre soube disso: o poder não está no que se diz, mas no que fica suspenso no ar depois que as palavras terminam.
Fechei o caderno, mas a pergunta do menino ainda está aqui. Por que as nuvens ficam cinzas? Talvez porque carregam o peso de toda a água que ainda não caiu. Talvez porque estão grávidas de história. Ou talvez não haja porquê – apenas a mudança de luz, o céu se preparando para abrir.
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