A manhã chegou com aquele cheiro de terra molhada que vem antes da chuva, mesmo quando o céu ainda está claro. Sentei na varanda com o caderno no colo, mas a caneta ficou parada. Às vezes a ficção pede silêncio, não palavras.
Uma vizinha passou apressada, o filho pequeno ao lado. Ele perguntou: "Mãe, por que as nuvens ficam cinzas antes de chover?" Ela não respondeu, apenas puxou a mão dele com mais força. Fiquei pensando na pergunta. Nas perguntas que fazemos quando somos pequenos e que deixamos de fazer quando crescemos, como se tivéssemos encontrado todas as respostas. Não encontramos.
Passei a tarde tentando escrever um conto sobre uma mulher que coleciona perguntas não respondidas. Escrevi três páginas, apaguei tudo. O erro estava em tentar explicar demais – por que ela coleciona, o que isso significa, onde vai dar. A ficção não precisa de mapas. Precisa de pegadas na lama, do rastro de algo que passou.