Acordei com aquela vontade inexplicável de fazer pão de queijo, o cheiro fantasma da receita da minha avó ainda vagando pela cozinha imaginária. Fui ao mercado cedo, quando a luz ainda está suave e as pessoas falam baixo, quase em segredo.
Escolhi o queijo minas devagar, apertando levemente para sentir a firmeza. Esse é o erro que sempre cometo: compro queijo demais, pensando que vou fazer montanhas de pão de queijo, quando na verdade faço porções modestas que desaparecem em minutos.
De volta em casa, aqueci o leite com óleo até começar a borbulhar nas bordas. O vapor subia carregando aquele aroma simples, quase neutro, mas que promete transformação. Despejei sobre a farinha de tapioca e vi a massa ganhar vida, grudenta e elástica sob meus dedos. É sempre uma surpresa como algo tão branco e sem forma se torna dourado e perfumado.
Enquanto sovava, lembrei da cozinha da minha avó em Minas, o fogão a lenha, o cheiro de café coado misturado ao queijo derretendo. Ela dizia:
"Massa de pão de queijo não mente. Se está ruim, você sabe na hora."
Hoje a massa estava boa. Enrolei as bolinhas, pequenas esferas irregulares que nunca ficam perfeitamente redondas, e coloquei no forno. Vinte minutos depois, a cozinha inteira cheirava a infância.
Mordi o primeiro ainda quente. A casca estala de leve, depois vem aquela textura elástica, meio oca por dentro, e o sabor do queijo derretido e salgado. Perfeito demais para durar.
Comi três de uma vez, queimando a língua, sem paciência. Deixei o resto esfriar. Às vezes o melhor da comida é esperar – mas nem sempre consigo.
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