Acordei cedo demais para um domingo, mas decidi transformar o erro do despertador numa oportunidade. Calcei os ténis e saí pela vizinhança ainda meio vazia, quando a luz da manhã pintava as fachadas de laranja suave e o cheiro de pão fresco escapava da padaria da esquina.
Sempre pensei que conhecia bem estas ruas, mas hoje reparei numa coisa estranha: há pelo menos três cafés num raio de duzentos metros, e todos têm exactamente o mesmo toldo cor de vinho. Será coincidência ou existe algum fornecedor que domina secretamente o mercado dos toldos lisboetas?
Parei num deles, o mais pequeno, e pedi um café. O senhor atrás do balcão perguntou-me: "O habitual?" Fiquei sem saber o que responder porque nunca tinha lá entrado. Arrisquei um sim, e ele trouxe-me uma bica e um pastel de nata ainda quente. Às vezes, ser confundido com outra pessoa tem as suas vantagens.
Continuei a caminhar em direcção ao rio, desviando-me por uma travessa que nunca tinha explorado. Encontrei um mural gigante de azulejos, meio escondido entre dois prédios – uma sereia segurando uma bússola. Como é que nunca tinha visto isto antes? Fiquei ali uns bons dez minutos, só a observar os detalhes: as escamas pintadas uma a uma, o reflexo da água sugerido por tons de azul cada vez mais claros.
No regresso, cruzei-me com uma turista a tentar tirar uma selfie com um pombo. O pombo não colaborou. Ofereci-me para tirar a foto – ela ficou na imagem, o pombo voou. Rimos os dois.
Cheguei a casa com os pés doridos mas a cabeça cheia de pequenos tesouros. Quantas coisas mais estarão escondidas nas ruas que atravesso todos os dias sem verdadeiramente ver?
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