Acordei cedo hoje com a intenção de explorar o mercado municipal antes que a multidão tomasse conta. O sol ainda batia fraco nas vitrines quando saí, mas já dava para sentir aquele cheiro de pão quente misturado com o escape dos ônibus matinais. Há algo reconfortante nessa combinação absurda que só as manhãs urbanas conseguem criar.
No caminho, reparei numa coisa curiosa: todas as padarias que passei tinham exatamente três clientes na fila. Não dois, não quatro. Três. Comecei a contar de propósito, virando esquinas só para testar minha teoria ridícula. Quinta padaria: três pessoas esperando. Será que existe um algoritmo secreto da fome matinal que ninguém me contou?
Quando finalmente cheguei ao mercado, uma senhora me ofereceu uma amostra de queijo artesanal. "Prova, filho, é de cabra da serra", ela disse com um sorriso que já tinha vendido mil queijos antes do café da manhã. Provei. Estava bom, mas não tão espetacular quanto ela prometia. Comprei mesmo assim – vai ver sou apenas educado demais para o meu próprio bem.
O melhor momento veio sem aviso: ao virar um corredor estreito entre as bancas de flores e temperos, a luz da manhã atravessou o teto de vidro criando um teatro de sombras nas pilhas de manjericão fresco. Fiquei ali parado feito turista na própria cidade, tirando fotos que provavelmente nunca vou revisar.
Voltei para casa com um queijo que não precisava e a sensação de que deveria fazer isso mais vezes. Quantas descobertas minúsculas estou perdendo ao pegar sempre o mesmo caminho, no mesmo horário, com os mesmos pensamentos automáticos?
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