Acordei com a certeza de que precisava caminhar. Não por exercício ou disciplina, mas porque há dias em que ficar parado parece pior do que qualquer destino incerto. Escolhi uma rota nova, saindo do bairro pela avenida lateral que nunca tinha explorado direito. O céu estava naquele cinza indeciso de março, nem chuvoso nem ensolarado, apenas existindo.
Logo na primeira esquina, reparei numa padaria que nunca tinha visto aberta. A porta estava entreaberta e o cheiro de pão quente invadiu a calçada. Entrei por curiosidade. O padeiro, um senhor de avental branco manchado de farinha, me cumprimentou com um aceno. "Primeira vez aqui?" perguntou. "É," respondi. "Não sabia que vocês abriam tão cedo." Ele riu. "A gente abre cedo, mas fecha cedo também. O segredo é não insistir quando ninguém aparece."
Comprei um pão de queijo ainda morno e segui caminhando. Enquanto mastigava, percebi que estava prestando atenção em coisas que normalmente ignoraria: o som de um portão enferrujado rangendo, a textura irregular das calçadas antigas, a sombra das árvores desenhando padrões no chão. Talvez seja isso que a caminhada faz, pensei. Obriga você a desacelerar o suficiente para notar o que sempre esteve ali.
No meio do trajeto, tentei uma experiência boba: virar à esquerda em toda esquina onde houvesse uma árvore florida. Resultado? Me perdi completamente. Acabei num beco sem saída cercado por muros altos e grafites coloridos. Um gato laranja me observava de cima de um muro, com aquela expressão felina que parece dizer "você realmente achou que esse plano ia funcionar?"
Voltei pelo caminho seguro, mas levei comigo a lição: planos ruins também geram histórias. E talvez seja isso que importa numa sexta-feira comum – não o destino, mas o desvio. Amanhã, quem sabe tento virar à direita nas esquinas com flores. Ou simplesmente aceito que me perder faz parte do passeio.
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