Acordei com aquela luz cinzenta de março que promete chuva mas nunca entrega. Decidi testar uma rota diferente para o mercado municipal – em vez de seguir pela avenida barulhenta, virei à esquerda na rua das jacarandás. Melhor decisão da semana.
A calçada estreita obrigava os pedestres a uma dança desajeitada: eu me encostava na parede de azulejos azuis, a senhora com sacolas de compras passava, depois vinha o entregador de bicicleta tocando a campainha. Ninguém reclamava. Era como se todos tivéssemos combinado que aquele trecho de trinta metros merecia um pouco de paciência.
No meio da rua, uma figueira antiga derramava raízes sobre o asfalto rachado. Parei para fotografar – e cometi o erro clássico de tentar três ângulos diferentes sem olhar onde pisava. Resultado? Pisei na poça que finalmente a manhã tinha conseguido formar. Tênis encharcado, dignidade intacta, lição aprendida: quando a luz está perfeita, primeiro olhe para baixo.
Um homem na varanda do segundo andar regava violetas e me acenou. Acenei de volta, como se fôssemos velhos conhecidos. Ele gritou algo sobre o tempo que não consegui entender direito, mas sorri e concordei. Às vezes a cidade funciona assim – conversas que não precisam fazer sentido completo para serem verdadeiras.
Cheguei ao mercado dez minutos mais tarde que o normal, mas com três fotos decentes e uma rota nova mapeada na cabeça. O vendedor de frutas perguntou por que eu estava sorrindo. "Descobri um caminho melhor," respondi. Ele deu de ombros, como quem diz que todos os caminhos levam ao mesmo lugar.
Será que existe mesmo um "caminho melhor", ou é só a novidade que faz parecer especial? Talvez na próxima semana eu volte para a avenida barulhenta e encontre outra coisa que tinha deixado passar.
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