Acordei com a ideia fixa de explorar o Bairro Alto antes do almoço, quando as ruas ainda estão meio vazias e o cheiro de café fresco mistura com o aroma de pão na chapa. Saí sem mapa, confiando apenas na bússola interna que costumo ignorar. Grande erro, claro. Acabei numa viela tão estreita que duas pessoas precisavam se encostar na parede para se passar.
Uma senhora com sacola de compras me olhou de lado e disse: "Turista?" Respondi que não, mas ela riu e apontou para os meus ténis brancos. "Só turista usa ténis assim pra subir essas ladeiras." Touché. Aprendi que até os sapatos denunciam a gente. Talvez devesse investir num par mais gasto, com história nas solas.
O que me salvou foi a luz da manhã. Ela caía em fatias pelos azulejos azuis e amarelos, criando sombras geométricas no chão irregular. Parei para fotografar, mas desisti. A câmera nunca captura o som dos passos ecoando nas paredes estreitas, nem o gosto levemente metálico do ar úmido que sobe das pedras antigas.
Decidi seguir uma regra simples: sempre virar à esquerda. Funcionou até chegar num beco sem saída com três gatos laranja me encarando como se eu tivesse invadido território privado. Recuei com dignidade, fingi que era intencional.
Numa esquina, um homem montava uma barraca de frutas. Perguntei se conhecia um café bom. Ele apontou para cima, "Terceiro andar, escada à direita, toca a campainha." Achei que estava a brincar, mas subi mesmo assim. Encontrei uma sala minúscula com quatro mesas e o melhor galão que já bebi. A dona nem cobrou, disse que era "amostra grátis para os corajosos que sobem".
Saí de lá pensando: quantas cidades existem dentro de uma cidade? Quantas portas nunca tocamos, quantas escadas nunca subimos porque parecem levar a lugar nenhum? Amanhã vou tentar virar sempre à direita e ver onde isso me leva. Aposto que vou acabar no mesmo beco com os mesmos gatos.
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