Acordei cedo demais hoje, ainda escuro lá fora, mas decidi que seria o momento perfeito para caminhar pelo bairro antes que a cidade acordasse de vez. Saí sem café, só com a câmera pendurada no pescoço e aquela expectativa estranha de quem espera encontrar algo diferente nas mesmas ruas de sempre.
A padaria da esquina já estava acesa, o cheiro de pão quente vazando pela porta entreaberta. Parei na calçada só para respirar aquilo por alguns segundos. Um senhor saiu carregando três sacolas de pão francês e, ao me ver parada ali como uma lunática cheirando o ar, disse: "Bom dia, moça. Tá esperando alguém ou só admirando mesmo?" Ri e respondi que estava admirando. Ele balançou a cabeça, sorrindo, como se entendesse perfeitamente.
Continuei pela Rua das Palmeiras, onde a luz da manhã começava a bater nas fachadas velhas, criando aquele contraste que sempre me faz parar para fotografar. Tentei três ângulos diferentes da mesma janela azul descascada antes de perceber que estava, mais uma vez, fotografando janelas. Preciso urgentemente ampliar meu repertório.
Num cruzamento qualquer, notei uma árvore que nunca tinha visto antes—ou melhor, que sempre esteve ali, mas que eu nunca realmente vi. Tinha flores pequenas, quase brancas, e um perfume adocicado que competia com o cheiro de escapamento dos carros. Fiquei ali parada, olhando para cima como turista na própria cidade, até que um ônibus buzinou e me lembrou que eu estava no meio da calçada.
Voltei para casa com as mãos geladas e a sensação estranha de ter viajado quilômetros sem sair do bairro. Me pergunto se amanhã vou reparar em mais coisas que sempre estiveram ali, ou se vou voltar a andar no piloto automático. Tomara que seja a primeira opção.
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