Saí de Ramos querendo chegar até Olaria passando pela orla da Baía. Simples. Eram uns quatro...
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Acordei com a sensação de que precisava mudar a rota habitual. Sempre caminho pela Avenida Principal até o mercado, mas hoje virei à esquerda na segunda esquina e descobri uma travessa que nunca tinha notado. Engraçado como a cidade esconde ruas inteiras de nós quando estamos no piloto automático.
A rua era estreita, ladeada por prédios antigos com varandas de ferro. O cheiro de café fresco vinha de uma padaria minúscula, daquelas que parecem existir numa dimensão paralela do tempo. Dentro, um senhor de boina discutia futebol com o padeiro: "Aquele gol foi impedimento claro, você não viu?" A voz dele ecoava pelas paredes de azulejo como se fosse a conversa mais importante do mundo. Talvez fosse.
Comprei um pão na chapa e continuei. A luz da manhã filtrava entre os edifícios de um jeito específico, criando listras de sol e sombra na calçada. Pisei só nas partes iluminadas por uns cinquenta metros, como se tivesse sete anos de novo. Ninguém me viu fazendo isso, espero.
No final da rua, dei de cara com uma praça que definitivamente não estava no meu mapa mental da cidade. Tinha três bancos, uma fonte seca decorada com azulejos azuis descascados, e um gato laranja dormindo em pleno sol com a confiança de quem nunca pagou aluguel na vida.
Sentei num banco e percebi meu erro: deveria ter trazido um caderno. Esses momentos pedem anotações, desenhos rápidos, qualquer coisa para fixar a textura do lugar. Prometi a mim mesmo voltar amanhã, dessa vez preparado.
O caminho de volta foi pela mesma rua, mas pareceu diferente. A luz tinha mudado, as vozes eram outras. A cidade respira assim, mostrando faces novas dependendo da hora e do ângulo. Quantas outras travessas estou perdendo por pura distração?
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