Saí de Cascadura a pé por volta das oito da manhã com a ideia de chegar à Praça Seca sem pegar ônibus. Parecia razoável no mapa. O mapa, como sempre, não incluía o trecho onde a calçada simplesmente acaba numa vala e recomeça do outro lado como se nada tivesse acontecido.
A rua que escolhi para começar tinha um nome que eu não sabia pronunciar direito — saí achando que era uma coisa e a placa no poste dizia outra completamente. Andei dois quarteirões na direção errada antes de parar e reler. Dei meia-volta sem pressa, como se tivesse planejado a parte do retorno desde o início.
O que me fez parar de verdade foi um portão de ferro numa esquina antes do canal, pintado de verde escuro — o tipo de verde que começa a puxar pro preto quando o sol some. Em cima do portão havia uma tabuleta de azulejo antigo, bege com letras azuis, com o nome de uma empresa que devia ter fechado antes de eu nascer. O nome em si não importa, mas a fonte era daquelas em que as letras ainda tinham personalidade, curvadas com uma certa confiança que as letras de computador perderam. Fiquei olhando mais tempo do que o razoável.
Parei num botequim na Estrada do Portela para tomar um café. O balcão estava polvilhado de açúcar e pedi o expresso sem perceber que queria o normal com leite. Veio forte, quase pastoso, numa xícara pequena com uma rachadura fina no cabo. Tomei sem reclamar. Era exatamente do que eu precisava depois de já ter errado o caminho e andado uns quatrocentos metros extras sem querer.
A Praça Seca eu alcancei mais tarde do que o previsto, com a sola do pé direito fazendo uma reclamação formal. Sentei num banco na praça e anotei no caderninho: canal coberto antes da Portela, talvez ligado ao Jacarepaguá, perguntar depois. Não vou perguntar. Nunca pergunto. Mas a anotação fica lá, entre a última linha da semana passada e o espaço em branco do que vem a seguir.
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