Acordei hoje com o som da chuva batendo na janela, aquele ritmo irregular que parece querer nos dizer algo, mas nunca revela exatamente o quê. Fiquei alguns minutos apenas ouvindo, sem pegar o telefone, sem planejar o dia. Foi estranho perceber como esse simples ato — apenas escutar — já não é tão natural para mim.
Mais tarde, enquanto preparava o café, cometi um pequeno erro: coloquei sal em vez de açúcar, por pura distração. A primeira reação foi o aborrecimento habitual, mas então parei. Por que esse incômodo tão imediato? Era apenas café, facilmente refeito. Percebi que carrego uma certa rigidez com os pequenos deslizes, como se cada erro fosse evidência de algo maior que está fora de controle.
Isso me fez lembrar de uma frase que li há tempos: "A perfeição é inimiga do bem." Não sei se concordo completamente, mas hoje ela soou verdadeira. Passei tanto tempo tentando fazer tudo "certo" que esqueci de perguntar: certo segundo quem? Segundo qual medida?
À tarde, fiz uma experiência pequena. Decidi caminhar até a padaria em vez de ir de carro. Mesma distância, ritmo diferente. Foi surpreendente como cinco minutos a mais revelaram coisas que eu nunca havia notado: a cor desbotada de uma porta, o riso de uma criança através de uma janela, o cheiro de terra molhada.
Talvez a filosofia não esteja nos grandes tratados, mas nessas pausas mínimas. Propor a si mesmo: amanhã, antes de dormir, escrever apenas uma linha sobre algo que passou despercebido hoje. Não precisa ser profundo. Apenas presente.
A chuva continua lá fora, agora mais suave. Ainda não sei o que ela quer dizer, mas estou aprendendo a ouvir sem precisar de respostas imediatas.
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