Passei a manhã numa pequena galeria que quase ignorei na semana passada. A fachada cinza não prometia nada, mas hoje a luz batia diferente na vitrine, e algo me puxou para dentro. Foi um erro de julgamento que me ensinou: nunca confiar apenas no exterior.
Dentro, três telas grandes ocupavam a parede principal. Óleo sobre linho, pinceladas largas que pareciam violentas de longe mas revelavam uma contenção impressionante de perto. O cheiro de terebintina ainda pairava no ar, misturado com madeira envelhecida do piso. Uma mulher de cabelos brancos ajustava a iluminação. "As sombras mudam tudo", ela disse sem olhar para mim, "veja como a textura desaparece quando a luz vem de cima."
Ela tinha razão. Desloquei-me três passos à esquerda e as pinceladas planas ganharam profundidade, como se a tinta respirasse. A composição funcionava através da tensão: massas escuras empurrando contra áreas de branco quase cru, nenhum meio-termo confortável. Isso me fez pensar em Rothko, mas sem a dissolução das bordas. Aqui, tudo era confronto deliberado.
Fiquei tentada a fotografar, mas resisti. Quis apenas deixar os olhos absorverem as proporções, a forma como o artista dividiu o espaço em terços irregulares que perturbavam a harmonia clássica. Há algo generoso em trabalhos que não facilitam, mas também não excluem. Eles pedem tempo, não conhecimento prévio.
Quando saí, o céu estava mais claro. Mas continuei vendo aqueles blocos de cor na retina, fantasmas que insistiam em acompanhar minha caminhada até o mercado. Arte boa faz isso: ela não termina quando você vira as costas.
#arte #pintura #composição #galeria #críticadearte