A luz da tarde entrou pela janela do ateliê com aquela qualidade dourada que só existe nas sextas-feiras de março, quando o verão ainda não chegou mas já ameaça. Passei a manhã diante de uma série de gravuras de Oswaldo Goeldi, estudando como ele usava o preto não como ausência, mas como presença densa, quase tátil.
"Você acha que ele raspava a matriz antes ou depois?", perguntou uma jovem ao meu lado na biblioteca. Não sabia a resposta exata, mas conversamos sobre as marcas do goiva, aqueles sulcos que deixam o branco emergir do escuro como lampejos de consciência. Ela anotava tudo num caderno com capa de tecido surrado.
Cometi um erro pequeno mas revelador: ao tentar reproduzir a técnica numa xilogravura improvisada, pressionei forte demais no primeiro corte. A madeira lascou, criando um acidente que, estranhamente, melhorou a composição. Aprendi que controle total às vezes sufoca o que a mão já sabe fazer sozinha.
Depois, caminhei até a galeria na rua paralela, onde expunham videoarte experimental. Uma peça me prendeu: três minutos de alguém lavando louça em câmera lenta, com o som da água amplificado até virar música industrial. O artista transformou o banal em ritual, e percebi como a repetição pode ser tanto prisão quanto portal.
Há algo na sexta-feira que convida à experimentação, talvez porque o fim de semana promete tempo para errar sem pressa. Fiquei pensando em como a crítica pode ser um convite em vez de um muro, como podemos analisar estrutura sem dissecar a magia até matá-la.
O que ficou comigo foi aquele branco emergindo do preto nas gravuras de Goeldi, e a certeza de que a técnica existe para servir a visão, nunca o contrário.
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