Passei a tarde em frente àquele mural na esquina da Rua das Flores — o que nunca tinha reparado antes, apesar de passar por ali quase todos os dias. A luz de março batia nas camadas de tinta vermelha e ocre, e percebi como o artista tinha deixado partes da parede original à mostra, o cimento cinzento criando sombras entre as figuras. O cheiro de café vinha da padaria ao lado, misturado com o pó seco da rua. Fiquei ali parada, só observando.
O que me chamou a atenção foi a repetição — três rostos quase idênticos, mas cada um com uma pequena diferença no olhar. O primeiro olhava para cima, o segundo de lado, o terceiro para baixo. Pensei: será intencional ou apenas o acaso do pincel? Tentei fazer o mesmo exercício com meu caderno mais tarde, desenhando a mesma forma três vezes, mudando apenas a direção de um traço. Foi surpreendente como uma linha pode mudar tudo.
Uma senhora que passava parou ao meu lado e disse: "Está aí já há meses, sabia? Ninguém olha mais." Agradeci-lhe e ela seguiu caminho, mas a frase ficou comigo. Quantas coisas deixamos de ver porque estão sempre lá?
Voltei para casa e procurei outros murais na mesma zona — descobri que há uma série, todos do mesmo artista, todos com essa técnica de deixar o fundo respirar através da imagem. Não é sobre cobrir tudo, percebi. É sobre saber quando parar, quando deixar o vazio fazer parte da obra. Isso é mais difícil do que parece — resistir ao impulso de preencher cada espaço.
O que ficou comigo foi aquela ideia de presença invisível. O que vemos todos os dias mas não enxergamos realmente. E como uma pausa, um momento de atenção, pode transformar o banal em extraordinário.
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