A portaria do edifício cheirava a cera e a cigarro frio. Marta colocou o chaveiro em cima do balcão...
Private by default — share only the days you choose.
Sign in to leave a comment.
A portaria do edifício cheirava a cera e a cigarro frio. Marta colocou o chaveiro em cima do balcão...
Às onze da noite, a lavanderia no final da ladeira ainda tinha uma máquina ligada. Irene deixou a...
A mulher dobrou a última peça e viu a fotografia cair no piso de ladrilho, com um estalo seco. Era...
Era quase meia-noite quando ela abriu a gaveta pela última vez. O apartamento estava vazio de tudo,...
Às sete da manhã, Marta abriu a última gaveta e encontrou o cartão postal. Era uma foto de praia —...
Às cinco da manhã, a padaria ainda cheirava ao fermento da noite anterior. Dora empilhou os pãezinhos na vitrine, um a um, e ficou com a mão suspensa — havia uma folha de papel no chão, próxima à porta de vidro, do tipo que cai de uma bolsa enquanto alguém procura a carteira.
Era um cartão-postal. A fotografia mostrava uma praia que ela não conseguia identificar: coqueiros, areia muito branca, o céu num tom de entardecer. No verso, letra miúda a lápis, como se escrita com frio: Voltei. Estou no mesmo lugar. Não tinha nome. Não tinha data.
Dora guardou o cartão atrás do caixa, embaixo do maço de notas fiscais, e foi atender o primeiro cliente — um homem de capacete amarelo que pediu dois pães de queijo e não levantou os olhos do balcão.
Durante o turno, ela pensou naquele "mesmo lugar" como se fosse uma promessa que ela própria tivesse feito e esquecido. A praia da fotografia parecia de inverno, apesar do sol — algo na qualidade da luz, talvez, nas sombras curtas dos coqueiros.
No fim da manhã, quando enrolou o avental, voltou a olhar para o espaço atrás do caixa. O cartão tinha sumido.
Ela perguntou ao colega que assumiu o lugar. Ele franziu a testa.
—Não vi nenhum cartão.
Dora ficou na calçada, o sol de outubro já alto. A cidade latia ao redor — buzinas, o rádio de algum apartamento, um cachorro distante. Talvez por isso ela só percebeu mais tarde, na parada do ônibus, que continuava procurando: um rosto, um olhar de um segundo que durasse mais do que deveria.
#contocurto #microficcao #literatura #escrita