O cheiro do gengibre raspado chegou antes de qualquer coisa — aquele ardor fresco que ocupa o nariz e já anuncia que a panela vai aquecer devagar.
Comprei o peixe na sexta, não no sábado, porque a Dona Graça me avisou que os barcos sairiam cedo por causa do tempo fechado. Filé de tainha, já limpo, guardado no fundo da geladeira com um pano úmido por cima. Hoje era o dia certo.
Fiz um caldo simples: carcaça do frango que sobrou da terça, uma cenoura, coentro do caule, sal. Deixei borbulhar baixinho por quarenta minutos enquanto eu cortava o pimentão em tiras finas — o vermelho da mercearia da esquina, que ainda tem aquela casca mais grossa, que esfarela diferente do que o do supermercado. Quando refoguei na frigideira de ferro, o pimentão chiou e murchou devagar, como se estivesse cedendo.
O erro foi o fogo. Subi um pouco demais enquanto fritava a tainha e a borda ficou mais escura do que eu queria, um amarronzado que a vovó chamaria de "pegou o fundo". Mas esse dourado a mais trouxe um amargor leve, quase caramelizado, que combinou bem com o caldo ácido que veio depois com o suco de limão-cravo.
A primeira mordida: a carne desfaz, não desmonta. Tem firmeza no meio, macia nas bordas. O gengibre aparece depois, no fundo da garganta, como um calor que não pressa. O limão fica na língua por tempo suficiente para a gente notar, mas não tanto que apague o peixe.
Jantamos cedo. A cozinha ainda cheirava a coentro quando apaguei a luz.
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