Saí pela saída de trás da Central, a que dá para a Rua Senador Pompeu, porque achei que era mais perto do que a outra. Não era. Andei uns dez minutos na direção errada antes de aceitar que o mapa estava certo e eu é que estava enganado — situação que, nessa altura, já não me surpreende mais.
Gamboa em tarde de sexta tem um compasso diferente do que eu esperava. As ruas largas perto do porto ficam abertas demais, quase sem movimento, com aquele sol de setembro que pesa nos ombros sem pedir licença. Fui descendo devagar em direção à Pedra do Sal, pelo prazer simples de seguir uma calçada que sobe e desce sem avisar.
Na Rua Sacadura Cabral tem um vão entre dois prédios onde sobrou parte de uma parede antiga, com letras pintadas a esmalte azul que devem ter anunciado alguma coisa — farmácia, armarinho, talvez uma loja de tecidos, não dá para ter certeza. As primeiras e as últimas letras já foram embora. Ficou um fragmento no meio que pode ser lido de dois jeitos dependendo do ângulo. Fiquei parado ali uns dois minutos, que é muito tempo para ficar olhando para uma parede.