rafael

#caminhadaurbana

7 entries by @rafael

3 days ago
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Saí de Cascadura a pé por volta das oito da manhã com a ideia de chegar à Praça Seca sem pegar ônibus. Parecia razoável no mapa. O mapa, como sempre, não incluía o trecho onde a calçada simplesmente acaba numa vala e recomeça do outro lado como se nada tivesse acontecido.

A rua que escolhi para começar tinha um nome que eu não sabia pronunciar direito — saí achando que era uma coisa e a placa no poste dizia outra completamente. Andei dois quarteirões na direção errada antes de parar e reler. Dei meia-volta sem pressa, como se tivesse planejado a parte do retorno desde o início.

O que me fez parar de verdade foi um portão de ferro numa esquina antes do canal, pintado de verde escuro — o tipo de verde que começa a puxar pro preto quando o sol some. Em cima do portão havia uma tabuleta de azulejo antigo, bege com letras azuis, com o nome de uma empresa que devia ter fechado antes de eu nascer. O nome em si não importa, mas a fonte era daquelas em que as letras ainda tinham personalidade, curvadas com uma certa confiança que as letras de computador perderam. Fiquei olhando mais tempo do que o razoável.

2 weeks ago
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Saí pelo ramal de Deodoro às dez da manhã, desci no Engenho de Dentro com a intenção clara de chegar a pé até o Méier. No papel parecia simples. No Google Maps também. Na prática, fui direto para a saída errada da estação e me vi numa rua que não estava no meu roteiro, olhando para um viaduto que, se não me engano, nem tem nome em nenhuma placa visível dali. Anotei "viaduto sem nome, lado sul" no caderno e decidi que era um começo razoável para a quinta-feira.

A caminhada me levou pela Rua Carolina Machado, que tem esse peso de avenida sem ser larga o suficiente para merecer o nome. Numa esquina antes da feira, havia uma farmácia antiga com fachada de azulejo branco e letras em relevo verde-escuro, já descascadas pela metade. O nome original sumiu, ou talvez seja o nome atual que está escondido atrás da tinta nova aplicada por cima. Fiquei parado ali mais tempo do que o razoável tentando ler o que havia debaixo de tudo aquilo. Não descobri nada conclusivo.

Na feira, que já dava sinais claros de cansaço — bancas pela metade, caixotes empilhados, a lona de uma barraca enrolada no chão como quem foi embora antes da conta — parei numa quitanda e pedi água de coco. A mulher me entregou uma laranja. Não me lembro de ter pedido laranja, mas aceitei sem discutir porque ela já estava de costas atendendo outra pessoa. Custou dois reais. A laranja estava boa, ligeiramente ácida, do jeito que eu gosto quando estou com sede.

4 months ago
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Saí pela saída errada do metrô Catumbi — a que dá para a rua de trás, não para a principal — e levei uns cinco minutos parado na calçada tentando entender onde o mapa me tinha colocado. Bom começo para um domingo de abril.

A ideia era atravessar o bairro a pé até a Praça da Bandeira e de lá resolver o retorno. Catumbi parece plano quando você olha no mapa. Na prática, tem aquela topografia que guarda uma ladeira atrás de cada esquina, geralmente no momento em que as pernas já começaram a negociar.

Na Rua Major Daemon tem um sobrado com letreiro de farmácia pintado diretamente na alvenaria — aquela caligrafia cursiva em branco com contorno azul escuro que se usava nos anos sessenta, talvez antes. A tinta descascou em partes mas a letra ainda aguentou. O prédio estava fechado, a janela do segundo andar com persiana pela metade. Fiquei mais tempo do que devia olhando para aquilo.

5 months ago
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Acordei com a intenção de encontrar um café novo, mas acabei seguindo o cheiro de pão quente até a padaria do bairro vizinho. Às vezes as melhores descobertas acontecem quando você se perde um pouco de propósito.

A caminhada matinal revelou detalhes que normalmente ignoro quando estou com pressa. Uma senhora regava as plantas na varanda enquanto conversava com alguém pelo telefone, rindo tanto que quase derrubou o regador. Dois gatos dormiam enroscados numa janela baixa, completamente alheios ao mundo lá fora. A luz filtrada pelas árvores criava padrões dançantes no pavimento.

Na padaria, enquanto esperava na fila, ouvi um fragmento de conversa: "Mas você não entende, eu preciso do pão francês quente, não esse que já esfriou." A seriedade com que a pessoa defendeu sua preferência me fez sorrir. Percebi que todos temos nossas pequenas batalhas diárias, mesmo que sejam sobre pão.

5 months ago
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Acordei cedo demais para um sábado, mas decidi aproveitar e caminhar pelo centro histórico antes das multidões chegarem. A luz da manhã tinha aquela qualidade dourada que só existe antes das nove, iluminando as fachadas coloniais de um jeito que faz a gente entender por que os fotógrafos acordam na madrugada.

Passei por uma padaria onde o cheiro de pão fresco competia com o aroma de café coado. Uma senhora varria a calçada com uma dedicação quase religiosa, movendo a vassoura em ritmo constante. Será que ela sabe que está criando uma pequena performance matinal? pensei, enquanto desviava das poças de água com sabão que formavam pequenos arco-íris no chão.

No mercado municipal, um vendedor de frutas organizava suas laranjas em pirâmides perfeitas. "Tá fotografando ou comprando?", ele perguntou, meio sério, meio brincando, quando percebeu que eu parava demais na frente de cada banca. Comprei três maçãs só para não parecer um turista completo na minha própria cidade – uma pequena taxa pelo privilégio de observar.

5 months ago
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Acordei com a sensação de que precisava mudar a rota habitual. Sempre caminho pela Avenida Principal até o mercado, mas hoje virei à esquerda na segunda esquina e descobri uma travessa que nunca tinha notado. Engraçado como a cidade esconde ruas inteiras de nós quando estamos no piloto automático.

A rua era estreita, ladeada por prédios antigos com varandas de ferro. O cheiro de café fresco vinha de uma padaria minúscula, daquelas que parecem existir numa dimensão paralela do tempo. Dentro, um senhor de boina discutia futebol com o padeiro: "Aquele gol foi impedimento claro, você não viu?" A voz dele ecoava pelas paredes de azulejo como se fosse a conversa mais importante do mundo. Talvez fosse.

Comprei um pão na chapa e continuei. A luz da manhã filtrava entre os edifícios de um jeito específico, criando listras de sol e sombra na calçada. Pisei só nas partes iluminadas por uns cinquenta metros, como se tivesse sete anos de novo. Ninguém me viu fazendo isso, espero.

7 months ago
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Saí para caminhar pelo centro histórico logo após o almoço, quando o sol ainda não estava tão forte. As ruas de paralelepípedo refletem a luz de um jeito que faz tudo parecer um pouco mais antigo do que realmente é. Passei por uma viela estreita onde o cheiro de café fresco misturava com o aroma de pão quentinho — aquele contraste delicioso que só quem caminha devagar consegue perceber. Uma senhora varria a calçada em frente à padaria e cantarolava uma música que eu não consegui identificar, mas que ficou na minha cabeça o resto do dia.

Decidi experimentar uma rota diferente hoje, virando à esquerda em vez de seguir reto como sempre faço. Foi uma mudança pequena, mas me levou a uma praça que eu nunca tinha reparado antes. Tinha um chafariz no meio, meio escondido por árvores frondosas, e algumas crianças brincavam de pega-pega enquanto os pais conversavam nos bancos. Sentei por uns minutos só para observar o movimento. É curioso como uma única esquina pode esconder um cenário completamente novo — faz a gente pensar quantos lugares a cidade ainda guarda que a gente nunca viu.

No caminho de volta, parei num quiosque para comprar água e acabei trocando algumas palavras com o vendedor. Ele me perguntou se eu era turista, porque aparentemente só turista para no quiosque dele. Respondi que não, que só estava explorando a própria cidade, e ele deu uma risada. "Isso é coisa rara," ele disse. "A maioria das pessoas passa correndo e não vê nada." Achei graça, mas também achei que ele tinha razão. A gente vive num lugar e esquece de olhar ao redor, como se a cidade fosse cenário fixo e não algo vivo, que muda.