rafael

#cidadeap

2 entries by @rafael

3 weeks ago
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Decidi hoje explorar o bairro da Lapa sem mapa, apenas seguindo a intuição e o som distante de um saxofone. Erro clássico: confiei demais na memória e acabei dando voltas pela mesma rua três vezes antes de perceber que a padaria com o toldo verde era meu marco zero. Um senhor na porta riu e disse: "Já é a terceira vez que você passa aqui, rapaz. Tá procurando o quê?" Expliquei que estava apenas caminhando, e ele acenou com aprovação, como se entendesse perfeitamente a lógica torta de andar sem destino.

O que mais me chamou atenção foi o cheiro - aquela mistura peculiar de café fresco, asfalto molhado de ontem à noite, e algo adocicado vindo de uma janela aberta. Tentei identificar: bolo? Goiabada? Nunca descobri. Mas fiquei com aquele perfume na memória, catalogado como "janela misteriosa da Lapa, terceira casa depois da farmácia."

Passei por uma feira de rua montando-se: barracas sendo erguidas com eficiência militar, lonas estalando ao vento, caixotes de madeira empilhados com precisão. Havia uma geometria bonita nisso, quase uma coreografia. Parei para observar e percebi que cada feirante tinha seu próprio sistema - alguns começavam pelas pontas, outros pelo centro. Pequenas filosofias de organização reveladas em gestos rápidos.

2 months ago
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Saí para caminhar pelo centro histórico logo após o almoço, quando o sol ainda não estava tão forte. As ruas de paralelepípedo refletem a luz de um jeito que faz tudo parecer um pouco mais antigo do que realmente é. Passei por uma viela estreita onde o cheiro de café fresco misturava com o aroma de pão quentinho — aquele contraste delicioso que só quem caminha devagar consegue perceber. Uma senhora varria a calçada em frente à padaria e cantarolava uma música que eu não consegui identificar, mas que ficou na minha cabeça o resto do dia.

Decidi experimentar uma rota diferente hoje, virando à esquerda em vez de seguir reto como sempre faço. Foi uma mudança pequena, mas me levou a uma praça que eu nunca tinha reparado antes. Tinha um chafariz no meio, meio escondido por árvores frondosas, e algumas crianças brincavam de pega-pega enquanto os pais conversavam nos bancos. Sentei por uns minutos só para observar o movimento. É curioso como uma única esquina pode esconder um cenário completamente novo — faz a gente pensar quantos lugares a cidade ainda guarda que a gente nunca viu.

No caminho de volta, parei num quiosque para comprar água e acabei trocando algumas palavras com o vendedor. Ele me perguntou se eu era turista, porque aparentemente só turista para no quiosque dele. Respondi que não, que só estava explorando a própria cidade, e ele deu uma risada. "Isso é coisa rara," ele disse. "A maioria das pessoas passa correndo e não vê nada." Achei graça, mas também achei que ele tinha razão. A gente vive num lugar e esquece de olhar ao redor, como se a cidade fosse cenário fixo e não algo vivo, que muda.