Acordei hoje com aquela sensação estranha de ter sonhado algo importante, mas não conseguir lembrar. Fiquei deitado mais alguns minutos, tentando recuperar os fragmentos, mas eles escorregavam como água entre os dedos. Talvez seja assim com muitos dos nossos pensamentos – presentes e vívidos num momento, invisíveis no seguinte.
Durante o café da manhã, cometi um erro pequeno mas revelador. Estava tão absorto nos meus pensamentos que coloquei sal no café em vez de açúcar. A primeira golfada foi um choque, claro, mas depois ri sozinho. Quantas vezes fazemos isso com a vida? Adicionamos o ingrediente errado porque estamos em piloto automático, tão perdidos nas nossas cabeças que esquecemos de prestar atenção ao momento presente.
Mais tarde, enquanto caminhava pela rua, reparei numa coisa curiosa: o som dos meus passos mudava conforme a superfície. No asfalto, um som oco e surdo. Nas pedras portuguesas, um estalar mais nítido. No metal de uma grelha, um tinir quase musical. Parei por um instante, apenas a ouvir. É fascinante como raramente prestamos atenção a estas pequenas variações na textura sonora do mundo.
Lembrei-me de uma frase que li há tempos: "A mente é como a água. Quando está agitada, é difícil ver com clareza. Quando está calma, tudo se torna óbvio." Não me lembro quem disse, mas ressoa verdadeira. Passei a manhã inteira a tentar forçar uma decisão sobre um projeto, ficando cada vez mais confuso. Só quando parei, respirei, e deixei a questão descansar é que a resposta começou a surgir naturalmente.
Aqui vai uma pequena experiência para ti: amanhã de manhã, antes de pegares no telemóvel ou começares o dia a correr, passa apenas cinco minutos em silêncio. Não precisas meditar ou fazer nada especial. Apenas senta-te, respira, e repara no que está à tua volta. Que sons ouves? Que texturas sentes? O que acontece quando não estás imediatamente a reagir ou a planear?
Às vezes, a filosofia mais profunda não está nos livros, mas nestes momentos quietos de simplesmente estar presente.
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