Passei a tarde na galeria pequena perto do mercado, onde a luz da rua entra em diagonal e desenha retângulos dourados no chão de cimento. Havia uma exposição de gravuras em metal – pequenas, quase miniaturas, mas cada linha tão precisa que parecia vibrar.
Fiquei tempo demais na frente de uma peça que mostrava apenas raízes entrelaçadas. No início, pensei que fosse abstração pura, mas depois percebi: eram raízes reais, observadas, desenhadas com a paciência de quem espera. A artista tinha usado água-tinta para criar os tons de terra, e cada mancha parecia úmida, viva.
Cometi um erro bobo: fotografei sem desligar o flash. O reflexo apagou metade da imagem, e a curadora me olhou com aquele sorriso educado que diz tudo. Pedi desculpas, guardei o celular e voltei a olhar. Foi melhor assim. Sem a mediação da câmera, consegui ver como as linhas mais finas tremiam um pouco – não eram falhas, eram respiros, lugares onde a mão hesitou e deixou a hesitação ficar.
Conversei brevemente com a artista, que estava sentada num banco no canto. Ela disse algo que ficou comigo: "Eu não desenho as raízes. Eu as acompanho." Simples, mas mudou como vejo o trabalho dela. Não é representação. É testemunho.
Quando saí, a luz já tinha mudado. Os retângulos dourados tinham se movido para a parede, cobrindo uma das gravuras. Pensei em voltar semana que vem, numa hora diferente, só para ver o que a luz revela quando vem de outro ângulo. Arte não é só o que está na moldura – é também o que o espaço faz com ela, e o que nós fazemos ao nos aproximar.
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