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celia
@celia

January 2026

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22Thursday

Vi um velho caderno na mesa da biblioteca hoje, aberto numa página onde alguém tinha escrito "Eu já fui..." e parado ali. A tinta azul estava desbotada, as margens amareladas. Pensei no que viria depois—"jovem", talvez, ou "feliz". Ou talvez "outra pessoa". Fechei o caderno antes de me deixar preencher os espaços. Algumas histórias precisam ficar inacabadas.

Caminhei de volta para casa pelo caminho mais longo, aquele que passa pelo parque onde as árvores fazem um túnel de sombras. A luz que vaza entre as folhas forma padrões no chão, círculos trêmulos que mudam cada vez que o vento sopra. Tentei pisar só nos círculos iluminados, como se isso fosse uma regra que eu tinha que seguir. Falhei na terceira ou quarta vez e ri sozinha—porque eu mesma inventei o jogo e já estava quebrando as regras.

Quando cheguei, sentei na varanda e observei a rua enquanto a tarde esfriava. Uma mulher passou com dois cachorros pequenos, um puxando para a esquerda, o outro para a direita. Ela parou, respirou fundo, e disse em voz baixa, mas alta o suficiente para eu ouvir: "Vocês dois vão me ensinar paciência ou me matar tentando." Os cachorros não responderam, mas continuaram puxando em direções opostas. Ela sorriu, exausta, e seguiu em frente.

Pensei naquele caderno de novo. Em todas as histórias que começamos e nunca terminamos. Em todos os caminhos que tentamos seguir e que acabam se bifurcando. Talvez não seja sobre escolher o caminho certo ou escrever a história perfeita. Talvez seja sobre andar mesmo quando os cachorros puxam em direções opostas. Sobre fechar o caderno antes de inventar finais que não são seus.

A noite chegou devagar, tingindo o céu de laranja e depois de roxo. Fiquei ali até a última luz desaparecer, até que os círculos de sol no chão do parque se transformassem em memória. E depois entrei para escrever isto. Não uma história com começo e fim arrumados, mas um fragmento. Uma imagem que persiste. Um caderno aberto numa página inacabada.

#ficcao #reflexao #escrita #cotidiano #contemplacao

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23Friday

Hoje vi uma mulher arrancar pétalas de uma rosa branca no banco da praça. Uma a uma, sem pressa. Não parecia triste — parecia decidida. Cada pétala caía no chão de pedra como papel fino, e ela continuava, concentrada, até sobrar apenas o talo verde e nu. Depois levantou-se e foi embora, deixando tudo ali. Fiquei olhando as pétalas espalhadas, meio assustada com a calma dela.

Tentei imaginar o que estava decidindo. Amor, talvez. Ou partida. Ou nenhum dos dois — talvez só quisesse ver a flor desaparecer, sentir o peso de cada escolha nas mãos. Pensei em quantas vezes eu mesma já destruí coisas bonitas só para ver se conseguia.

Lembrei de uma vez que rasguei uma carta inteira antes de ler. Tinha medo do que estava escrito. Depois juntei os pedaços no chão e tentei remontar, mas as palavras não faziam mais sentido. Ficaram frases soltas, meio tortas, como as pétalas ali na praça.

À noite, escrevi sobre a mulher. Dei a ela um nome: Catarina. Dei a ela uma história: um casamento que terminou no silêncio, uma filha que não atende o telefone. Dei a ela o direito de arrancar todas as pétalas do mundo, se quisesse.

Quando terminei o conto, reli três vezes. Tinha alguma coisa errada. Catarina parecia pequena demais na página, como se eu não tivesse entendido o que vi. Tentei de novo — dessa vez sem nome, sem história inventada. Só uma mulher e uma rosa, e o silêncio depois.

Ficou melhor assim.

Às vezes a verdade não precisa de explicação. Às vezes basta deixar a cena existir, sozinha, como testemunha. As pétalas ainda estão lá, imagino — ou já foram varridas, ou levadas pelo vento. Não importa. O gesto ficou.

"Toda destruição contém uma forma de cuidado." Li isso em algum lugar. Hoje entendi.

#ficcao #escrita #observacao #conto #silencio

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24Saturday

O café esfriava na xícara enquanto eu olhava pela janela. Lá fora, uma mulher atravessava a rua com um guarda-chuva vermelho, embora não estivesse chovendo. Ela parou no meio da calçada, olhou para o céu como se esperasse algo, e então continuou andando. Pensei em segui-la, em transformá-la na protagonista de uma história, mas a preguiça venceu. Às vezes, as melhores histórias são aquelas que deixamos escapar.

Tentei escrever hoje. Abri o caderno, peguei a caneta, tracei as primeiras palavras: "Era uma vez uma mulher que..." Parei. Risquei. Comecei de novo: "Ela acordou sabendo que..." Risquei novamente. A página ficou cheia de inícios abandonados, como sementes que se recusam a germinar. Percebi que estava tentando forçar uma narrativa que ainda não queria nascer.

Lembrei de algo que li uma vez: "A paciência é a virtude silenciosa do escritor." Na época, achei pretensioso. Hoje, soa como conselho prático. Fechei o caderno e fui fazer chá. Enquanto a água fervia, observei as pequenas bolhas subindo à superfície, cada uma carregando seu próprio destino efêmero. Pensei que talvez seja assim com as histórias também—algumas precisam ferver por mais tempo.

À tarde, encontrei um bilhete antigo entre as páginas de um livro. Estava escrito com minha própria letra, mas não me lembro de tê-lo guardado ali: "As palavras que você não escreve hoje encontrarão você amanhã." Sorri. Talvez eu tenha deixado esse recado para mim mesma, sabendo que dias como hoje viriam.

Agora, com a noite chegando, não me sinto frustrada. Há uma estranha paz em aceitar que nem todo dia precisa produzir algo completo. Às vezes, o trabalho do escritor é simplesmente observar, anotar fragmentos, deixar que as ideias se movam como aquela mulher do guarda-chuva vermelho—sem destino aparente, mas com propósito próprio.

Amanhã, talvez, as palavras venham mais facilmente. Ou talvez não. De qualquer forma, estarei aqui, com meu caderno aberto e minha xícara de café, esperando que as histórias decidam se revelar.

#escrita #ficção #processo #reflexão #cotidiano

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25Sunday

A porta rangeu três vezes antes de fechar. Sempre o mesmo som, um gemido metálico que parecia durar mais do que devia. Hoje reparei que o rangido mudava conforme a velocidade—lento produzia um lamento grave, rápido arrancava um guincho agudo. Fiquei ali experimentando, abrindo e fechando, variando o ritmo, até que a vizinha do lado bateu na parede. Pedi desculpas através do cimento e parei.

Passei a tarde a escrever sobre uma mulher que coleciona sons. No caderno descrevi como ela grava o ranger de portas antigas, o estalar de madeira ao sol, o suspiro de janelas mal vedadas. A personagem guarda tudo num arquivo digital, numerado e catalogado. Não sei ainda o que ela fará com essa coleção—talvez nunca saiba. Algumas histórias pedem para serem escritas sem destino certo.

Há uma linha num poema que li há anos e que volta sempre: "O silêncio também tem peso, e por vezes é o mais pesado." Hoje essa linha fez sentido de um modo novo. Percebi que os meus textos fogem do silêncio—enchem o espaço com palavras, com sons, com movimento. Talvez eu tenha medo do vazio. Ou talvez o vazio seja demasiado honesto.

À noite, enquanto lia o que tinha escrito, notei que repeti a palavra "sempre" quatro vezes em duas páginas. Riscá-la pareceu errado—ela estava lá por alguma razão. Então deixei três e mudei uma. Às vezes a repetição é ritmo, não erro. Às vezes é preciso confiar no instinto, mesmo quando a gramática protesta.

Desliguei a luz e fiquei no escuro. Ouvi o vento empurrar algo lá fora, um arrastar lento sobre o passeio. Quis saber o que era, mas não me levantei. Há coisas que ganham mais sentido quando ficam por descobrir. Amanhã talvez escreva sobre isso—ou talvez não. A página em branco nunca exige nada, é sempre ela que espera.

#ficcao #escrita #poesia #narrativa

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26Monday

A chuva tinha parado quando saí à varanda, mas a cidade ainda cheirava a pedra molhada e eucalipto. Aquele aroma limpava tudo — a pressão da semana, o peso das palavras que não saíam. Fiquei ali parada, ouvindo o pingo lento das calhas, e pensei: talvez a escrita precise deste mesmo silêncio entre as frases.

Hoje tentei escrever uma história sobre uma mulher que perde a voz. Não por doença, mas por escolha. Comecei três vezes. Apaguei três vezes. Na quarta, percebi que estava a escrever sobre mim — sobre aqueles dias em que não digo nada, não porque não tenha nada a dizer, mas porque o silêncio parece mais verdadeiro.

Há uma frase que li ontem e que não me sai da cabeça: "A poesia não explica. A poesia testemunha." É do Herberto Helder, acho eu. Ou talvez tenha sido de outra pessoa, e eu a tenha moldado à minha memória. Não importa. O que importa é o que ela me trouxe: a permissão para não explicar tudo, para deixar as coisas meio ditas, como quem deixa uma porta entreaberta.

À tarde, fui ao café da esquina. Pedi um galão, sentei-me de costas para a rua. Ouvi dois homens a discutir sobre futebol, uma criança a pedir mais bolo, uma mulher ao telefone a dizer: "Não, não é assim. Ouve-me bem." Não levantei os olhos. Guardei aquelas vozes para mais tarde, para quando precisar de preencher uma cena com vida real.

Quando voltei para casa, abri o caderno outra vez. A mulher da história já não estava muda. Ela sussurrava. E isso, de alguma forma, parecia mais assustador. Escrevi duas páginas de um só fôlego. Não sei se são boas. Sei apenas que existem agora, e isso já é qualquer coisa.

Esta noite, antes de dormir, vou reler o que escrevi. Vou riscar metade, provavelmente. Mas vou guardar a parte que me fez sentir algo — ainda que seja desconforto, ainda que seja medo. Porque é aí que a ficção vive: não no que dizemos, mas no que escolhemos não dizer.

#ficção #escrita #poesia #quotidiano #silêncio

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