Às onze da noite, a lavanderia estava vazia exceto por ela e o barulho da máquina número três, que roncava como se houvesse pedra lá dentro.
Ela sentou na cadeira de plástico amarelo e abriu o livro que nunca conseguia terminar. O ventilador no teto girava devagar, empurrando o ar quente de um canto para o outro sem melhorar nada.
Quando o ciclo parou, ela abriu a porta da máquina e encontrou, enrolada numa meia branca, uma fotografia. Preto e branco, um pouco amassada, as bordas onduladas pela umidade. Dois homens numa escada externa — um mais velho, um mais novo — os dois olhando para cima, para algo fora do quadro.
Ela ficou olhando por tempo demais.
A moça do balcão veio perguntar se estava tudo bem.
—Alguém esqueceu isso —ela disse, estendendo a foto.
—Deixa aqui. Às vezes voltam.
Ela deixou. Mas na rua, no caminho de volta para o apartamento que já estava quase esvaziado das suas coisas, lembrou do avô. Da última vez que o viu numa varanda, olhando para cima, para um pombo ou para uma nuvem ou para nada em especial. Ela tinha doze anos e não perguntou o que ele via.
A chave do apartamento pesava no bolso. Amanhã ela devolveria.
Talvez fosse isso que as fotografias guardavam: não as pessoas, mas o instante antes de alguém perguntar.
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