Às quatro e meia da manhã, Ângela pediu um café sem açúcar e sentou na mesa do fundo, de costas para a rua.
A padaria tinha um cheiro de pão ainda não assado — farinha, fermento, a promessa de algo que ainda não era. O ventilador de teto girava devagar, como se também estivesse acordando. Em algum lugar nos fundos, alguém empurrava uma bandeja de metal; o som chegava abafado, quase gentil.
Ela colocou o envelope sobre a mesa mas não o abriu. Já sabia o que havia dentro: a chave do apartamento da Rua dos Andradas, onde tinha morado sete anos. A imobiliária pedira até as oito.
O atendente, um menino com cabelo ainda despenteado, trouxe o café sem perguntar nada. Ângela gostou disso.
Lá fora, o caminhão de limpeza passou devagar, levantando o cheiro de asfalto molhado que ela sempre associou ao começo das coisas. Abertura de escola. Primeiro dia de trabalho. A manhã em que chegou à cidade com uma mala e a chave que o dono do apartamento entregara num envelope igual a esse — menor, marrom, com o lacre já meia-aberto.
Ela tomou o café em silêncio. Depois abriu o envelope, tirou a chave, ficou olhando para ela por um tempo que não soube medir. O metal estava frio apesar do calor que fazia.
―Posso deixar isso aqui? ―perguntou ao menino, mostrando a chave.
Ele piscou, incerto.
―Deixa aí na mesa ―ela disse. ―Alguém vai achar uso.
Pagou, saiu. Na calçada, o ar cheirava a pão quase pronto. Ela caminhou sem destino certo, como se a cidade fosse um apartamento novo que ainda precisava decorar.
A chave ficou sobre a mesa de fórmica até as seis, quando o atendente a guardou no bolso sem saber bem por quê.
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