Acordei com a sensação de que precisava mudar a rota habitual. Sempre caminho pela Avenida Principal até o mercado, mas hoje virei à esquerda na segunda esquina e descobri uma travessa que nunca tinha notado. Engraçado como a cidade esconde ruas inteiras de nós quando estamos no piloto automático.
A rua era estreita, ladeada por prédios antigos com varandas de ferro. O cheiro de café fresco vinha de uma padaria minúscula, daquelas que parecem existir numa dimensão paralela do tempo. Dentro, um senhor de boina discutia futebol com o padeiro: "Aquele gol foi impedimento claro, você não viu?" A voz dele ecoava pelas paredes de azulejo como se fosse a conversa mais importante do mundo. Talvez fosse.
Comprei um pão na chapa e continuei. A luz da manhã filtrava entre os edifícios de um jeito específico, criando listras de sol e sombra na calçada. Pisei só nas partes iluminadas por uns cinquenta metros, como se tivesse sete anos de novo. Ninguém me viu fazendo isso, espero.