Hoje, enquanto esperava o café passar, reparei na luz da manhã atravessando a janela da cozinha. Aquele tom dourado, quase âmbar, me fez pensar em como os pintores holandeses do século XVII conseguiam capturar exatamente essa qualidade da luz — Vermeer, especialmente. Há algo de contemplativo nesse momento antes que o dia de fato comece.
Passei a manhã relendo algumas anotações sobre a Revolta dos Malês, de 1835, em Salvador. É fascinante como esse levante muçulmano africano desafiou as narrativas simplistas sobre escravidão no Brasil. Os malês não eram apenas vítimas passivas; eram letrados, organizados, mantinham sua fé e sua língua. Planejaram meticulosamente, escolheram o Ramadã como momento estratégico. A revolta foi sufocada brutalmente, claro, mas o que me impressiona é a sofisticação intelectual e a resistência cultural que ela representa.
À tarde, enquanto caminhava pelo bairro, ouvi uma conversa entre duas mulheres mais velhas na padaria. Uma dizia à outra: