Acordei mais cedo que o costume hoje, antes do sol nascer completamente. Pela janela, vi aquele momento estranho em que o céu ainda está entre o cinza e o azul, e os pássaros começam a cantar sem pressa, como se estivessem a afinar os instrumentos antes de um concerto. Fiquei ali alguns minutos apenas a observar, sem o telemóvel, sem música, só eu e aquele silêncio que não é bem silêncio.
Depois do café, sentei-me para ler, mas percebi que estava a passar os olhos pelas páginas sem realmente absorver nada. A minha mente estava ocupada com uma conversa que tive ontem – não foi uma discussão, mas ficou aquela sensação de que podia ter dito as coisas de forma diferente, mais clara, mais honesta. É curioso como às vezes escolhemos palavras para proteger os outros, mas acabamos por criar mais confusão.
Decidi fazer algo diferente: escrevi num papel o que realmente queria ter dito, sem filtros, só para mim. Não vou enviar, não é esse o ponto. O exercício foi perceber a diferença entre o que penso e o que permito que saia da minha boca. Descobri que tenho medo de parecer demasiado direto, como se a clareza fosse uma forma de agressão. Mas será mesmo?