tiago

#pequenosexperimentos

6 entries by @tiago

1 week ago
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Ontem à noite fiquei a ler mais uma hora do que pretendia. Nada grave — um ensaio sobre atenção que foi puxando —, mas acordei esta manhã com os olhos pesados e uma ligeira tensão na parte de trás do pescoço.

O pensamento foi imediato: hoje vai ser um dia difícil. Fiz uma pausa ali. A tensão é real. O pensamento é uma previsão, não um facto. A sensação — uma espécie de lassidão, uma resistência difusa a começar — é outra coisa, distinta das duas primeiras. Confundi-as durante muito tempo.

Há três semanas que estou a registar a correlação entre a hora a que adormeço e o humor da manhã seguinte. A hipótese inicial era simples: dormir depois da meia-noite piora o início do dia. O que estou a observar é mais matizado — o que parece importar mais não é a hora de dormir, mas se houve uma transição calma antes. Luz baixa, ecrã desligado pelo menos vinte minutos. Esta semana testei o inverso: fui para a cama mais cedo mas com o telemóvel na mão até quase adormecer. O resultado desta manhã sugere que a hora pode ser secundária.

2 months ago
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Esta manhã acordei cinco minutos antes do alarme. O estômago estava contraído — não de ansiedade, era outra coisa. Mais parecido com antecipação. Fiquei quieto na cama a notar isso: o peito um pouco mais alto do que o habitual, a respiração curta mas não difícil. O pensamento que apareceu foi: hoje tenho de responder ao Eduardo. A sensação já estava antes do pensamento, por isso não são a mesma coisa.

Tenho evitado o Eduardo há talvez duas semanas. Nada declarado, só respostas mais curtas, mais demoradas. Noto que isso me pesa de uma forma que não sei ainda nomear bem — não é culpa exatamente, não é alívio. Fica ali no fundo do dia, a ocupar espaço sem forma definida.

Estou a tentar uma coisa esta semana: responder às mensagens no mesmo dia, mesmo que seja só para dizer que preciso de tempo. Hipótese — que o peso que sinto tem mais a ver com o adiamento do que com o conteúdo. Período: sete dias, até quarta da próxima semana. Como vou verificar: se o estômago muda de textura ao final da tarde. O que noto hoje é que escrever isto aqui já aliviou ligeiramente a contração. Fico com a hipótese de que nomear tem efeito, mas não sei se é o nomear ou o decidir.

3 months ago
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Esta manhã acordei mais lento do que o habitual. Não adormeci tarde — eram onze e meia — mas o sono teve aquela textura rasa que reconheço quando a cabeça não para por completo. Enquanto fazia o café, reparei nos ombros: subidos, ligeiramente contraídos. A sensação no peito não era ansiedade. Era mais parecida com antecipação sem objeto.

Fiquei a tentar localizar o que mudou ontem à noite. Houve uma conversa curta antes de deitar, uma daquelas em que respondi depressa demais. Não havia nada de errado de facto, mas fiquei com qualquer coisa por dizer. Pensamento: deveria ter ficado mais uns minutos. Sensação física: um peso pequeno, algures perto do esterno. Não cheguei a escrever sobre isso na altura — fechei o telemóvel e deitei-me.

Tenho um ensaio a decorrer desde há oito dias. Os parâmetros:

5 months ago
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Acordei hoje com a luz do sol a entrar pela janela de uma forma diferente. Não sei se a posição mudou com a estação ou se simplesmente nunca tinha reparado antes, mas havia uma faixa dourada no chão que parecia querer dizer algo. Fiquei ali sentado, só a observar, e percebi como raramente paro assim. Sempre há algo a fazer, sempre há um próximo passo.

Tentei uma coisa simples esta manhã: antes de pegar no telefone, perguntei a mim mesmo "O que é que eu realmente preciso neste momento?" A resposta foi silêncio. Só isso. Cinco minutos de silêncio antes de começar o dia. Não foi meditação formal, não foi nada especial. Foi apenas estar ali, com a luz, com o som distante dos pássaros lá fora.

O engraçado é que cometi o erro habitual à tarde. Estava a ler um artigo sobre atenção plena e, sem dar por isso, já tinha três separadores abertos e a mente completamente dispersa. Ri-me de mim próprio. Como é que posso ler sobre estar presente se nem consigo ficar presente enquanto leio? Mas talvez seja precisamente esse o ponto. Não se trata de ser perfeito. Trata-se de reparar.

5 months ago
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Acordei hoje com aquela sensação estranha de ter sonhado algo importante, mas ao tentar lembrar, restou apenas uma névoa cinzenta. Fiquei alguns minutos deitado, observando a luz da manhã filtrar pela cortina, criando padrões suaves na parede. Percebi como a mente se agarra ao que escapa — quanto mais eu tentava recuperar o sonho, mais ele se dissolvia.

Mais tarde, enquanto preparava café, cometi um pequeno erro: coloquei sal em vez de açúcar. Aquele primeiro gole amargo me fez rir de mim mesmo. O que aprendi? Que funciono no piloto automático mais vezes do que imagino. Quantos gestos faço sem estar realmente presente?

À tarde, numa conversa rápida com uma vizinha, ela disse: "Às vezes a gente esquece que pensar demais também cansa, né?" Fiquei com aquela frase na cabeça. É verdade. A mente pode ser tanto refúgio quanto labirinto. Notei que passo horas ruminando questões que talvez não precisem de resposta imediata.

5 months ago
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Acordei com o som da chuva batendo na janela. Não era uma chuva forte, mas aquele tipo persistente que parece querer conversar. Fiquei alguns minutos apenas ouvindo, sem pegar o telefone, sem planejar o dia. Foi estranho perceber como esse silêncio interior é raro — quantas vezes eu realmente ouço a chuva sem já estar pensando no que vem a seguir?

Depois do café, tentei meditar. Usei um timer de dez minutos, mas aos cinco já estava inquieto. A mente queria resolver uma conversa de ontem, planejar a semana, lembrar de algo que esqueci. Pensei em desistir, mas decidi ficar. Não porque fosse "correto", mas por curiosidade: o que acontece se eu simplesmente fico, mesmo quando é desconfortável?

O interessante foi notar que a inquietação não desapareceu. Ela continuou lá, como uma criança pedindo atenção. Mas aos poucos percebi que eu não era a inquietação — eu estava apenas observando ela. Essa distância pequena mudou tudo. Não resolvi nada, não alcancei nenhuma paz profunda. Mas senti que havia espaço entre mim e meus pensamentos.