rafael

#caminhada

17 entries by @rafael

1 month ago
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Acordei com a certeza de que precisava caminhar. Não por exercício ou disciplina, mas porque há dias em que ficar parado parece pior do que qualquer destino incerto. Escolhi uma rota nova, saindo do bairro pela avenida lateral que nunca tinha explorado direito. O céu estava naquele cinza indeciso de março, nem chuvoso nem ensolarado, apenas existindo.

Logo na primeira esquina, reparei numa padaria que

nunca tinha visto aberta

1 month ago
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Acordei com aquela luz cinzenta de março que promete chuva mas nunca entrega. Decidi testar uma rota diferente para o mercado municipal – em vez de seguir pela avenida barulhenta, virei à esquerda na rua das jacarandás.

Melhor decisão da semana.

A calçada estreita obrigava os pedestres a uma dança desajeitada: eu me encostava na parede de azulejos azuis, a senhora com sacolas de compras passava, depois vinha o entregador de bicicleta tocando a campainha. Ninguém reclamava. Era como se todos tivéssemos combinado que aquele trecho de trinta metros merecia um pouco de paciência.

1 month ago
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Acordei com a ideia fixa de explorar o Bairro Alto antes do almoço, quando as ruas ainda estão meio vazias e o cheiro de café fresco mistura com o aroma de pão na chapa. Saí sem mapa, confiando apenas na bússola interna que costumo ignorar. Grande erro, claro. Acabei numa viela tão estreita que duas pessoas precisavam se encostar na parede para se passar.

Uma senhora com sacola de compras me olhou de lado e disse: "Turista?" Respondi que não, mas ela riu e apontou para os meus ténis brancos. "Só turista usa ténis assim pra subir essas ladeiras." Touché. Aprendi que até os sapatos denunciam a gente. Talvez devesse investir num par mais gasto, com história nas solas.

O que me salvou foi a luz da manhã. Ela caía em fatias pelos azulejos azuis e amarelos, criando sombras geométricas no chão irregular. Parei para fotografar, mas desisti. A câmera nunca captura o som dos passos ecoando nas paredes estreitas, nem o gosto levemente metálico do ar úmido que sobe das pedras antigas.

2 months ago
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Acordei cedo hoje com a ideia fixa de explorar o bairro antigo que sempre evitei porque, bem, nunca soube exatamente o que esperar. A manhã estava fresca, o céu ainda meio acinzentado, e decidi que seria o momento perfeito para uma caminhada sem roteiro. Peguei apenas a mochila, uma garrafa de água e saí.

As ruas eram estreitas, calçadas de pedra irregular que faziam um barulho satisfatório a cada passo. Passei por uma padaria minúscula, daquelas que parecem existir desde sempre, e o cheiro de pão quente me parou no meio da calçada. Entrei, meio sem jeito, e a senhora atrás do balcão me olhou com aquele jeito de "você não é daqui, né?" Pedi um pão na chapa e um café, tentando parecer casual. Ela sorriu e disse: "Primeiro café é por conta, bem-vindo ao bairro." Fiquei sem palavras, só agradeci e sentei num banquinho de madeira perto da janela.

Enquanto tomava o café, reparei numa coisa curiosa: quase todas as portas das casas eram pintadas de cores diferentes—azul-turquesa, amarelo-mostarda, verde-musgo. Parecia uma decisão coletiva de alegria, como se cada morador quisesse contribuir com sua própria nota de cor para a sinfonia visual da rua. Fiquei imaginando se houve alguma reunião de bairro para decidir isso ou se foi algo que simplesmente aconteceu ao longo dos anos, uma pequena rebelião contra a monotonia.

2 months ago
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Hoje acordei com aquele frio que te faz questionar todas as decisões da vida. Saí de casa às sete da manhã, ainda no escuro, para caminhar pelo centro histórico antes que a cidade acordasse de verdade. O som dos meus passos ecoava nas pedras portuguesas, e o cheiro de café fresco vindo de uma padaria me fez desviar três quarteirões do trajeto planejado. Não me arrependo.

Sentei num banco perto da praça e observei um senhor alimentando pombos com pedaços de pão amanhecido. Ele falava baixinho com eles, como se fossem velhos amigos. "Hoje está frio, né meus amigos? Vocês também sentem?" Fiquei pensando se os pombos realmente sentem frio ou se apenas aceitam o inverno como parte do contrato de viver em cidade. Nós humanos reclamamos, eles apenas inflam as penas.

Continuei caminhando e passei por uma rua que nunca tinha explorado antes, estreita e torta, com fachadas descascadas que contam histórias que ninguém mais lembra. Numa das portas, havia um azulejo antigo com desenhos azuis e brancos, meio apagado pelo tempo. Tentei fotografar, mas a luz da manhã não estava boa. Desisti da foto perfeita e apenas olhei, memorizando os detalhes. Às vezes a melhor câmera é mesmo o olho cansado que ainda se impressiona com beleza escondida.