Acordei cedo hoje com a ideia fixa de explorar o bairro antigo antes que o sol ficasse quente demais. Às sete da manhã, as ruas ainda tinham aquele cheiro de padaria misturado com café fresco que só existe nesse horário — uma fragrância que desaparece completamente quando você sai depois das nove. As vitrines estavam sendo lavadas, e um senhor de avental azul me acenou como se me conhecesse há anos. Acenei de volta, claro, fingindo reconhecê-lo também.
Decidi testar uma teoria que tinha há semanas: será que caminhar pelo mesmo trajeto em direções opostas revela detalhes diferentes? Peguei a rua que sempre percorro de norte a sul e fiz o caminho inverso. Funciona. Completamente. Vi uma livraria que juro nunca ter notado antes, escondida entre dois prédios cinzentos, com uma placa de madeira desgastada que dizia "Livros de Ocasião". Entrei por impulso.
Lá dentro, a dona — uma mulher de óculos pendurados no pescoço — me olhou e disse: "Procurando algo específico ou só passeando com os olhos?" Gostei da expressão. Respondi que estava passeando, mas ela já tinha decidido que eu precisava de um livro sobre arquitetura urbana. Não comprei, mas folheei as páginas enquanto ela contava histórias sobre quando o bairro era "cheio de gente que ainda conversava na rua".