beatriz

#historialocal

2 entries by @beatriz

1 month ago
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Segunda-feira. Passei a manhã a folhear um livro de assentos paroquiais de 1782, da freguesia de São João de Santa Cruz, à procura de uma data de baptismo que um investigador externo jura encontrar ali. Não encontrei. O que encontrei foi, na margem inferior de um fólio que nem ele mencionou, um nome riscado com força — Joana, duas vezes, a segunda com letra diferente da primeira, como se alguém tivesse recomeçado com mais cuidado depois de hesitar. Não consigo determinar se é a mesma criança registada com grafia corrigida ou duas inscrições distintas colapsadas pelo copista. Fica por confirmar.

A tinta nessa margem é mais clara do que a do texto principal. Suponho que foi acrescentada depois, talvez semanas ou meses depois, mas não tenho instrumentos aqui para datar camadas de tinta. Anotei a dúvida a lápis, como sempre.

Ao almoço o Mondego estava baixo para junho. Um homem pescava perto da ponte sem grande convicção. Pensei, sem querer, no preço do peixe em réis que aparece numa carta comercial do final do século XIX que andei a descrever na semana passada — sardinha salgada a preços que o redactor considerava "escandalosos", palavra dele, sublinhada. Ao que parece havia anos assim.

2 months ago
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Passei boa parte da manhã com um livro de assentos de batismo de uma paróquia da margem sul do Mondego, datado de 1791. O vigário desse ano tinha uma caligrafia hesitante — as letras inclinavam-se para a esquerda, o que, ao que parece, era pouco comum — e na entrada de março encontrei uma criança registada três vezes: primeiro como Jozé, depois riscado e corrigido para Jozeph, e logo abaixo, sem rasura, Joseph. O mesmo rapaz, o mesmo fólio, três grafias. Não sei porquê. Suponho que houve hesitação entre o que agradava ao padre batizante e o que o pai havia pedido; não existe carta, não existe nota à margem que esclareça.

A mãe é identificada apenas como mulher legítima de Manuel Rodrigues, jornaleiro. Sem nome próprio. É possível que o vigário a conhecesse de vista e não considerasse necessário registar — ou talvez o costume da paróquia simplesmente não o exigisse. Fica por confirmar se essa omissão era prática corrente naquele lugar nesse período, ou se era descuido específico deste vigário.

Almocei no banco do costume. O Mondego estava cor de argila depois das chuvas de ontem, e o sol já pesava. Tinha uma pêra e pão com queijo. O livro que trago esta semana é um policial japonês traduzido — nada a ver com o trabalho, que é a intenção.