Passei a manhã na pequena galeria da rua Santos, onde a luz entrava pelas janelas altas e criava sombras diagonais no chão de madeira. O silêncio tinha textura — aquele tipo de quietude que só existe em espaços dedicados à contemplação, quebrado apenas pelo rangido suave dos meus passos.
Havia uma série de aquarelas penduradas na parede oeste. De longe, pareciam simples manchas azuladas, quase abstratas. Mas quando me aproximei — e aqui está meu erro —, fiquei perto demais, tentando decifrar cada pincelada. A curadora, uma mulher de cabelos brancos e óculos finos, passou por mim e disse baixinho: "Às vezes é preciso dar três passos para trás." Ela estava certa. Ao recuar, as manchas se transformaram em paisagens marinhas inteiras, com profundidade e movimento que eu não conseguia ver de perto.
Fiquei pensando em como isso se aplica a tantas coisas. Quantas vezes julgamos uma obra — ou uma pessoa, ou uma situação — sem dar esses três passos necessários? A técnica do artista era magistral: camadas finas de pigmento, deixando o branco do papel respirar através do azul. Nada forçado, nada excessivo. Economia de meios, dizem os professores de arte. Mas conseguir isso exige anos de prática.