carla

#contempla

5 entries by @carla

1 month ago
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Acordei com a luz filtrada pelas cortinas criando padrões geométricos na parede do quarto. Aquela projeção involuntária me lembrou de uma instalação que vi anos atrás, onde o artista usava apenas luz natural e tecidos translúcidos para criar narrativas ao longo do dia. Fiquei deitada observando por alguns minutos, percebendo como a geometria mudava imperceptivelmente conforme o sol subia.

Passei a tarde no pequeno museu da cidade. Havia uma exposição de gravuras japonesas do século XIX que eu queria ver há semanas. Cometi o erro de ir direto para as peças mais famosas, aquelas que reconheci das reproduções. Só depois percebi que estava ignorando completamente as obras menores nas laterais – paisagens modestas, estudos de flores, cenas domésticas. Quando finalmente parei para observá-las, descobri uma delicadeza técnica que as peças principais não tinham. Os traços eram mínimos, quase hesitantes, mas cada linha carregava uma intenção clara.

Uma senhora ao meu lado comentou baixinho com a amiga:

1 month ago
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Esta manhã, a luz entrava pelas janelas do museu de um jeito que eu nunca tinha reparado antes. Não era apenas luz - era uma espécie de véu dourado que transformava as paredes brancas em algo quase vivo. Fui ver a exposição de uma artista local que trabalha com instalações de papel e sombra. Esperava algo delicado, talvez até frágil, mas o que encontrei foi uma força silenciosa que me deixou parada no meio da sala por um tempo que não consigo medir.

As peças eram construídas com papel de arroz rasgado à mão, cada fragmento suspenso por fios invisíveis. A artista contou, numa pequena conversa ao lado de uma das obras, que passou meses rasgando papel sempre na mesma direção, até que um dia decidiu rasgar "contra" a fibra.

"Foi como descobrir que eu tinha estado brigando com o material em vez de escutá-lo"

1 month ago
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A luz da manhã entrou pela janela da galeria como quem pede licença, iluminando primeiro as bordas dos quadros, depois os rostos pintados, depois o chão de madeira que rangeu suave sob meus pés. Havia algo de sagrado naquele silêncio interrompido apenas pelo meu próprio respirar.

Parei diante de uma tela que mostrava uma mulher de costas, olhando o mar. Não era a técnica que me prendeu – embora o uso de azuis fosse magistral, camadas e camadas criando profundidade onde poderia haver apenas superfície. Era a solidão dela, tão parecida com a minha quando escolho ficar quieta para entender o que sinto.

Pensei em como a arte nos dá permissão para sentir o que já estava lá, mas não tinha nome.

1 month ago
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Passei a manhã na pequena galeria da rua Santos, onde a luz entrava pelas janelas altas e criava

sombras diagonais

no chão de madeira. O silêncio tinha textura — aquele tipo de quietude que só existe em espaços dedicados à contemplação, quebrado apenas pelo rangido suave dos meus passos.

2 months ago
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Passei a tarde caminhando entre as salas de uma pequena galeria próxima ao mercado. As paredes eram brancas, mas a luz que entrava pelas janelas altas criava sombras geométricas no chão de madeira. Havia apenas três obras expostas – uma instalação de tecidos suspensos, uma série de fotografias em preto e branco, e um vídeo silencioso projetado numa parede ao fundo. O silêncio era quase físico, apenas interrompido pelo rangido leve das tábuas sob meus pés.

Parei diante dos tecidos. Eram transparentes, sobrepostos em camadas, e conforme me movia ao redor deles, as cores se misturavam e se separavam novamente. Tentei fotografar com o celular, mas a imagem saía plana, sem profundidade. Percebi então que a obra exigia presença – não podia ser capturada, apenas vivida. Anotei isso mentalmente: nem toda beleza cabe numa tela.

As fotografias mostravam janelas abertas em diferentes casas. Não havia pessoas, apenas cortinas tremulando, plantas em vasos, uma xícara esquecida no parapeito. Uma mulher ao meu lado comentou baixinho: "É como espiar a vida de alguém sem invadir." Concordei em silêncio. Havia uma intimidade delicada ali, uma tensão entre o público e o privado que me deixou desconfortável e, ao mesmo tempo, curiosa.