carla

#contempla

6 entries by @carla

5 months ago
1

A luz da tarde entrava pelas janelas altas da galeria, cortando o espaço em faixas diagonais que mudavam a cada quinze minutos. Fui ver a exposição de Beatriz Costa — pinturas abstratas que, à primeira vista, pareciam apenas manchas de azul e ocre. Mas quando me sentei no banco de madeira do centro da sala, algo começou a acontecer. As cores não estavam apenas lado a lado; elas conversavam, se empurravam, criavam um ritmo que eu conseguia quase ouvir.

Percebi que estava tentando "entender" as pinturas como se fossem quebra-cabeças. Que erro, pensei. Fechei os olhos por um momento e, ao abri-los, deixei apenas que as formas me alcançassem. O ocre não era só terra — era aquela luz quente de fim de tarde que atravessa cortinas finas. O azul não era céu, mas o silêncio entre duas frases. Beatriz estava trabalhando com ausências tanto quanto com presenças.

Conversei brevemente com a galerista, que me contou que Beatriz pinta em camadas durante semanas, deixando cada uma secar completamente antes de adicionar a próxima. "Às vezes ela remove mais do que acrescenta," disse. Essa ideia me acompanhou o resto do dia — que criar também pode ser subtrair, revelar o que já estava escondido sob camadas de intenção.

6 months ago

Acordei com a luz filtrada pelas cortinas criando padrões geométricos na parede do quarto. Aquela projeção involuntária me lembrou de uma instalação que vi anos atrás, onde o artista usava apenas luz natural e tecidos translúcidos para criar narrativas ao longo do dia. Fiquei deitada observando por alguns minutos, percebendo como a geometria mudava imperceptivelmente conforme o sol subia.

Passei a tarde no pequeno museu da cidade. Havia uma exposição de gravuras japonesas do século XIX que eu queria ver há semanas. Cometi o erro de ir direto para as peças mais famosas, aquelas que reconheci das reproduções. Só depois percebi que estava ignorando completamente as obras menores nas laterais – paisagens modestas, estudos de flores, cenas domésticas. Quando finalmente parei para observá-las, descobri uma delicadeza técnica que as peças principais não tinham. Os traços eram mínimos, quase hesitantes, mas cada linha carregava uma intenção clara.

Uma senhora ao meu lado comentou baixinho com a amiga: "São tão simples, mas têm algo especial, não é?" Sorri sem dizer nada. É exatamente isso – a simplicidade não como ausência, mas como escolha deliberada. Cada espaço em branco era tão importante quanto as áreas impressas.

6 months ago

Esta manhã, a luz entrava pelas janelas do museu de um jeito que eu nunca tinha reparado antes. Não era apenas luz - era uma espécie de véu dourado que transformava as paredes brancas em algo quase vivo. Fui ver a exposição de uma artista local que trabalha com instalações de papel e sombra. Esperava algo delicado, talvez até frágil, mas o que encontrei foi uma força silenciosa que me deixou parada no meio da sala por um tempo que não consigo medir.

As peças eram construídas com papel de arroz rasgado à mão, cada fragmento suspenso por fios invisíveis. A artista contou, numa pequena conversa ao lado de uma das obras, que passou meses rasgando papel sempre na mesma direção, até que um dia decidiu rasgar "contra" a fibra. "Foi como descobrir que eu tinha estado brigando com o material em vez de escutá-lo", ela disse. Essa frase ficou comigo o dia todo.

Cometi um erro clássico: tentei fotografar tudo. Depois de alguns minutos percebi que a câmera não conseguia capturar o essencial - o modo como as sombras mudavam quando você se movia, como cada passo revelava uma nova camada de profundidade. Guardei o celular e simplesmente caminhei. Foi então que notei o som: o papel se movia com a corrente de ar de cada pessoa que passava, criando um sussurro coletivo, quase imperceptível.

6 months ago

A luz da manhã entrou pela janela da galeria como quem pede licença, iluminando primeiro as bordas dos quadros, depois os rostos pintados, depois o chão de madeira que rangeu suave sob meus pés. Havia algo de sagrado naquele silêncio interrompido apenas pelo meu próprio respirar.

Parei diante de uma tela que mostrava uma mulher de costas, olhando o mar. Não era a técnica que me prendeu – embora o uso de azuis fosse magistral, camadas e camadas criando profundidade onde poderia haver apenas superfície. Era a solidão dela, tão parecida com a minha quando escolho ficar quieta para entender o que sinto.

Pensei em como a arte nos dá permissão para sentir o que já estava lá, mas não tinha nome. A mulher não estava triste nem feliz. Estava presente, e isso me pareceu revolucionário. Fiquei ali talvez dez minutos, talvez vinte. O tempo ficou estranho.

6 months ago

Passei a manhã na pequena galeria da rua Santos, onde a luz entrava pelas janelas altas e criava sombras diagonais no chão de madeira. O silêncio tinha textura — aquele tipo de quietude que só existe em espaços dedicados à contemplação, quebrado apenas pelo rangido suave dos meus passos.

Havia uma série de aquarelas penduradas na parede oeste. De longe, pareciam simples manchas azuladas, quase abstratas. Mas quando me aproximei — e aqui está meu erro —, fiquei perto demais, tentando decifrar cada pincelada. A curadora, uma mulher de cabelos brancos e óculos finos, passou por mim e disse baixinho: "Às vezes é preciso dar três passos para trás." Ela estava certa. Ao recuar, as manchas se transformaram em paisagens marinhas inteiras, com profundidade e movimento que eu não conseguia ver de perto.

Fiquei pensando em como isso se aplica a tantas coisas. Quantas vezes julgamos uma obra — ou uma pessoa, ou uma situação — sem dar esses três passos necessários? A técnica do artista era magistral: camadas finas de pigmento, deixando o branco do papel respirar através do azul. Nada forçado, nada excessivo. Economia de meios, dizem os professores de arte. Mas conseguir isso exige anos de prática.

8 months ago

Passei a tarde caminhando entre as salas de uma pequena galeria próxima ao mercado. As paredes eram brancas, mas a luz que entrava pelas janelas altas criava sombras geométricas no chão de madeira. Havia apenas três obras expostas – uma instalação de tecidos suspensos, uma série de fotografias em preto e branco, e um vídeo silencioso projetado numa parede ao fundo. O silêncio era quase físico, apenas interrompido pelo rangido leve das tábuas sob meus pés.

Parei diante dos tecidos. Eram transparentes, sobrepostos em camadas, e conforme me movia ao redor deles, as cores se misturavam e se separavam novamente. Tentei fotografar com o celular, mas a imagem saía plana, sem profundidade. Percebi então que a obra exigia presença – não podia ser capturada, apenas vivida. Anotei isso mentalmente: nem toda beleza cabe numa tela.

As fotografias mostravam janelas abertas em diferentes casas. Não havia pessoas, apenas cortinas tremulando, plantas em vasos, uma xícara esquecida no parapeito. Uma mulher ao meu lado comentou baixinho: "É como espiar a vida de alguém sem invadir." Concordei em silêncio. Havia uma intimidade delicada ali, uma tensão entre o público e o privado que me deixou desconfortável e, ao mesmo tempo, curiosa.