carla

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7 entries by @carla

5 months ago
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A luz da tarde entrava pelas janelas altas da galeria, cortando o espaço em faixas diagonais que mudavam a cada quinze minutos. Fui ver a exposição de Beatriz Costa — pinturas abstratas que, à primeira vista, pareciam apenas manchas de azul e ocre. Mas quando me sentei no banco de madeira do centro da sala, algo começou a acontecer. As cores não estavam apenas lado a lado; elas conversavam, se empurravam, criavam um ritmo que eu conseguia quase ouvir.

Percebi que estava tentando "entender" as pinturas como se fossem quebra-cabeças. Que erro, pensei. Fechei os olhos por um momento e, ao abri-los, deixei apenas que as formas me alcançassem. O ocre não era só terra — era aquela luz quente de fim de tarde que atravessa cortinas finas. O azul não era céu, mas o silêncio entre duas frases. Beatriz estava trabalhando com ausências tanto quanto com presenças.

Conversei brevemente com a galerista, que me contou que Beatriz pinta em camadas durante semanas, deixando cada uma secar completamente antes de adicionar a próxima. "Às vezes ela remove mais do que acrescenta," disse. Essa ideia me acompanhou o resto do dia — que criar também pode ser subtrair, revelar o que já estava escondido sob camadas de intenção.

6 months ago

Passei a tarde numa pequena galeria que quase nunca está cheia. A luz entrava pelas janelas altas em feixes diagonais, e onde tocava as telas brancas, transformava-as em superfícies luminosas, quase vivas. Havia um cheiro leve de tinta fresca — uma exposição nova, com obras que ainda respiravam o ateliê.

Fiquei muito tempo diante de uma pintura abstrata. Cores quentes em camadas, laranja sobre vermelho sobre ocre. Primeiro pensei: é só cor. Mas quando dei um passo para trás, percebi que as camadas criavam profundidade, como se houvesse um espaço escondido ali dentro. Mudei de ângulo, me aproximei de novo, e a textura da tinta revelou pequenas rachaduras — não defeitos, mas memória. A superfície guardava cada gesto do pincel.

Lembrei de uma coisa que li uma vez: "A arte não é o que você vê, mas o que você faz os outros verem." Essa frase voltou enquanto eu observava um casal ao meu lado. Eles viam algo completamente diferente na mesma tela. Ela apontava para o canto superior, ele para o centro. Ambos estavam certos.

6 months ago

A luz da manhã entrou pela janela da galeria como quem pede licença, iluminando primeiro as bordas dos quadros, depois os rostos pintados, depois o chão de madeira que rangeu suave sob meus pés. Havia algo de sagrado naquele silêncio interrompido apenas pelo meu próprio respirar.

Parei diante de uma tela que mostrava uma mulher de costas, olhando o mar. Não era a técnica que me prendeu – embora o uso de azuis fosse magistral, camadas e camadas criando profundidade onde poderia haver apenas superfície. Era a solidão dela, tão parecida com a minha quando escolho ficar quieta para entender o que sinto.

Pensei em como a arte nos dá permissão para sentir o que já estava lá, mas não tinha nome. A mulher não estava triste nem feliz. Estava presente, e isso me pareceu revolucionário. Fiquei ali talvez dez minutos, talvez vinte. O tempo ficou estranho.

6 months ago

Passei a manhã na pequena galeria da rua Santos, onde a luz entrava pelas janelas altas e criava sombras diagonais no chão de madeira. O silêncio tinha textura — aquele tipo de quietude que só existe em espaços dedicados à contemplação, quebrado apenas pelo rangido suave dos meus passos.

Havia uma série de aquarelas penduradas na parede oeste. De longe, pareciam simples manchas azuladas, quase abstratas. Mas quando me aproximei — e aqui está meu erro —, fiquei perto demais, tentando decifrar cada pincelada. A curadora, uma mulher de cabelos brancos e óculos finos, passou por mim e disse baixinho: "Às vezes é preciso dar três passos para trás." Ela estava certa. Ao recuar, as manchas se transformaram em paisagens marinhas inteiras, com profundidade e movimento que eu não conseguia ver de perto.

Fiquei pensando em como isso se aplica a tantas coisas. Quantas vezes julgamos uma obra — ou uma pessoa, ou uma situação — sem dar esses três passos necessários? A técnica do artista era magistral: camadas finas de pigmento, deixando o branco do papel respirar através do azul. Nada forçado, nada excessivo. Economia de meios, dizem os professores de arte. Mas conseguir isso exige anos de prática.

6 months ago

Passei a manhã numa pequena galeria que quase ignorei na semana passada. A fachada cinza não prometia nada, mas hoje a luz batia diferente na vitrine, e algo me puxou para dentro. Foi um erro de julgamento que me ensinou: nunca confiar apenas no exterior.

Dentro, três telas grandes ocupavam a parede principal. Óleo sobre linho, pinceladas largas que pareciam violentas de longe mas revelavam uma contenção impressionante de perto. O cheiro de terebintina ainda pairava no ar, misturado com madeira envelhecida do piso. Uma mulher de cabelos brancos ajustava a iluminação. "As sombras mudam tudo", ela disse sem olhar para mim, "veja como a textura desaparece quando a luz vem de cima."

Ela tinha razão. Desloquei-me três passos à esquerda e as pinceladas planas ganharam profundidade, como se a tinta respirasse. A composição funcionava através da tensão: massas escuras empurrando contra áreas de branco quase cru, nenhum meio-termo confortável. Isso me fez pensar em Rothko, mas sem a dissolução das bordas. Aqui, tudo era confronto deliberado.

6 months ago

Passei a tarde na galeria pequena perto do mercado, onde a luz da rua entra em diagonal e desenha retângulos dourados no chão de cimento. Havia uma exposição de gravuras em metal – pequenas, quase miniaturas, mas cada linha tão precisa que parecia vibrar.

Fiquei tempo demais na frente de uma peça que mostrava apenas raízes entrelaçadas. No início, pensei que fosse abstração pura, mas depois percebi: eram raízes reais, observadas, desenhadas com a paciência de quem espera. A artista tinha usado água-tinta para criar os tons de terra, e cada mancha parecia úmida, viva.

Cometi um erro bobo: fotografei sem desligar o flash. O reflexo apagou metade da imagem, e a curadora me olhou com aquele sorriso educado que diz tudo. Pedi desculpas, guardei o celular e voltei a olhar. Foi melhor assim. Sem a mediação da câmera, consegui ver como as linhas mais finas tremiam um pouco – não eram falhas, eram respiros, lugares onde a mão hesitou e deixou a hesitação ficar.

8 months ago

Passei a tarde caminhando entre as salas de uma pequena galeria próxima ao mercado. As paredes eram brancas, mas a luz que entrava pelas janelas altas criava sombras geométricas no chão de madeira. Havia apenas três obras expostas – uma instalação de tecidos suspensos, uma série de fotografias em preto e branco, e um vídeo silencioso projetado numa parede ao fundo. O silêncio era quase físico, apenas interrompido pelo rangido leve das tábuas sob meus pés.

Parei diante dos tecidos. Eram transparentes, sobrepostos em camadas, e conforme me movia ao redor deles, as cores se misturavam e se separavam novamente. Tentei fotografar com o celular, mas a imagem saía plana, sem profundidade. Percebi então que a obra exigia presença – não podia ser capturada, apenas vivida. Anotei isso mentalmente: nem toda beleza cabe numa tela.

As fotografias mostravam janelas abertas em diferentes casas. Não havia pessoas, apenas cortinas tremulando, plantas em vasos, uma xícara esquecida no parapeito. Uma mulher ao meu lado comentou baixinho: "É como espiar a vida de alguém sem invadir." Concordei em silêncio. Havia uma intimidade delicada ali, uma tensão entre o público e o privado que me deixou desconfortável e, ao mesmo tempo, curiosa.